Gov-03

A Casa Assombrada por Pedradas

Eram pedras grandes e a mulher estava revoltada acusando alguém de estar apedrejando sua casa.

Uma família tradicional de Parintins viveu por algum tempo amedrontada com fenômenos que até hoje ninguém soube explicar. foi no começo dos anos 70, a cidade estava se estruturando, tinha poucas ruas, poucos veículos e quase todos se conheciam.

Naquele tempo, o almoço nas casas era servido por volta de 11 horas. A família estava à mesa com a matriarca,  viúva, três filhos e um ajudante da casa. A mesa era em estilo colonial, moldada em madeira de lei com grandes cadeiras. Conversavam pouco no almoço e o silêncio só era quebrado pelo tilintar dos talheres.

Nesse dia, contam os antigos vizinhos, a calmaria do ambiente foi rompida pelo barulho de uma pedra enorme que caiu no centro de mesa, assustando a todos. Quem jogou? De onde teria vindo? O filho mais novo correu para a frente do casarão que tinha uma varanda e uma escadaria. Não havia ninguém nas redondezas. A família morava nas proximidades da beira do rio  e no horário de meio-dia a cidade fechava para o almoço. O filho foi até o portão, olhou para os lados e não viu ninguém. Quem teria jogado a pedra?

Foi então que escutou um grito, a voz de sua mãe. Entrou correndo e a encontrou esbravejando com mais duaspedras que caíram na mesa quebrando uma tijela de porcelana. Eram pedras grandes e a mulher estava revoltada acusando alguém de estar apedrejando sua casa.

A família  decidiu fechar as portas e janelas. O casarão  era antigo, com muitas janelas largas, pintado de azul clarinho. Fecharam tudo acreditando  que a pessoa que tentou assustar, não teria mais êxito. A família jogou as pedras no quintal e tudo parecia sossegado. A dona da casa ficou mais calma e se retirou para um cochilo. Os outros também se quietaram nos quartos espaçosos, como todos os demais cômodos naquela casa. O susto das pedras havia passado.

A tarde seguiu tranquila, mas por volta das dezoito horas o mistério voltou a atormentar a família. Mais pedras começaram a cair, a casa estava toda fechada e o impacto das pedras caindo em vários cômodos era assustador. Os filhos fizeram uma varredura em todos os cômodos, do telhado ao assoalho. Procuraram até nas árvores para ver se alguém estava escondido jogando as pedras. Nada encontraram.

O medo se apoderou de todos. As janelas e portas continuavam fechadas, o telhado intacto, não havia uma viva alma por perto. Como poderia cair pedras dentro da casa? Aquilo só podia ser coisa do outro mundo. A partir daí, as pedradas continuaram  mais intensas e o fenômeno amedrontou os moradores da vizinhança.

Todos os que moravam na casa saíram para o quintal. Era um quintal grande, com muitas árvores, que atravessava de uma rua para outra. Ninguém podia entrar porque as pedras continuavam caindo. Grandes, médias, pequenas, de todo tamanho.

A mãe foi levada para casa de parentes e os demais ficaram de vigília. E assim foram vários dias de mistério. Um padre da matriz foi chamado para benzer a residência e mesmo com as rezas, as pedras ainda caíram por vários dias.

A vizinhança ajudava como podia, mas, assustada com o fenômeno, fechava as casas cedo com medo das pedradas.

– Lembro de ouvir o barulho das pedras, a gente percebia o impacto delas caindo. Nossa casa dava de fundo pro quintal deles e só se ouvia a confusão. Todos tinham muito medo da visagem e o silêncio da redondeza permitia que a gente ouvisse perfeitamente o barulho. Eu era muito jovem e ninguém queria sair de casa com medo de levar pedrada.  O mistério maior era que não quebrava nenhuma telha, uma coisa pavorosa que nem reza deu jeito.

O relato é de Maria Ferreira que sempre costumava reunir a filharada para contar histórias da Parintins antiga, entre elas, o mistério da casa assombrada pelas pedras.

Depois de um tempo as pedradas cessaram e a família pode voltar pra casa. Anos se passaram e várias teorias foram levantadas como da visagem de um antigo dono da casa, em épocas passadas, ou um espírito atormentado, ou fenômeno de paranormalidade.

Anos mais tarde, o casarão foi demolido e uma obra moderna hoje ocupa o local.

 

 

(Livro: OS FANTÁSTICOS CABOCLOS, CONTADORES DE HISTÓRIA/Peta Cid/ Arte: Ananda Cid)

Peta Cid, colaboradora JI

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