A Saga de um Ciclista, amante de Parintins

"Obrigado Parintins, eu te amo", diz Diego Eduardo, ao chegar na Ilha Encantada.

Na foto, o momento em que Diego Eduardo deixa sua terra, Batatais (SP), rumo a Parintins (AM)

 

Diego Eduardo, de Batatais (SP), engenheiro civil, aos 34 anos, realizou um sonho, conhecer a ilha de Parintins, no Amazonas, isso tudo pedalando de sua cidade natal até aqui. Muito simpático e cortês, o jovem aventureiro, abriu um espaço para nos responder sobre sua trajetória até aqui.

 

Carlos Frazão – Nos fale um pouco da sua vida, seu estado civil, sua paixão pelo ciclismo.

Diego Eduardo – Meu nome completo é Diego Eduardo César, natural da cidade de Batatais (interior de São Paulo), que fica a 45 km da cidade de Ribeirão Preto, e a 350 km da capital São Paulo. Batatais é uma cidade de 70.000 mil habitantes e fica no norte do estado de São Paulo, próximo a divisa com o estado de Minas Gerais. Sou engenheiro civil formado há 10 anos e terapeuta (especializado em dependência química e aconselhamento familiar). Trabalhei em uma construtora durante 14 anos e desde que me formei (2010) até dezembro de 2019, exercia a função de engenheiro. Sou amante de atividade física e já fui jogador de futebol profissional atuando em alguns clubes de pequeno porte.  Sou solteiro, e comecei a pedalar no dia 11 de janeiro pela primeira vez para começar a treinar e a fazer pequenas viagens pela região da minha cidade simulando a minha real viagem. Eu comecei a pesquisar o ciclismo somente 6 meses antes da minha viagem, foi onde conheci e comecei a estudar a modalidade do cicloturismo (definição de cicloturismo: nada mais é que fazer turismo utilizando como veículo a bicicleta ou viajar de bicicleta. Poderia dizer que a característica básica é percorrer longas distâncias com a bicicleta, já que para pequenas distâncias seria chamado passeio ciclístico.). Tive muito mais teoria do que á própria pratica. Descobri com outros praticantes desta modalidade que o condicionamento físico não era o principal atributo para praticar o cicloturismo, pois isso se conquistava aos poucos dia após dia, começando com pequenas distancias e ir aumentando gradualmente. O maior e principal atributo para praticar o cicloturismo é um condicionamento mental muito bom, em outras palavras estar bem preparado psicologicamente para enfrentar as adversidades e desafios do dia a dia, como chuvas, tempestades, manutenção da bike, pneus furados, alimentação ou as vezes a falta dela, hospedagem incerta ou saber enfrentar o desafio de escolher o melhor local pra dormir. E claro que isso exige muito do psicológico de uma pessoa nessas condições. Se faz necessário  serenidade e sensatez para tomar as decisões. Ainda mais no meu caso que fui sozinho.

CF – O que o motivou para fazer essa aventura de conhecer e chegar até Parintins?

DE – O que me motivou a fazer essa viagem, pois eu não chamo de aventura porque significa pra mim muito mais que uma aventura, significa mudança radical de vida, mas é claro que não deixa de ser uma aventura também. O motivo em si foi que eu vivia uma anedonia (definição de anedonia: falta ou perda da capacidade de sentir prazer e/ou satisfazer-se, presente em pessoas diagnosticadas com depressão). Vivia uma insatisfação pessoal e profissional muito grande e somado a isso eu conheci o festival folclórico de Parintins em 2006 (14 anos atrás) pela emissora Band, onde se transmitia ao vivo para todo território nacional. Lembro que foi paixão a primeira vista, principalmente pelo meu boi Caprichoso, lembro como se fosse hoje que minha estrela batia forte naquele momento em que vi a apresentação do nosso lindo touro negro da América no Bumbódromo. A partir daí comecei a estudar a história dos festivais, a cultura do estado do Amazonas, a culinária, a história de Parintins e dos itens do festival e como funcionava. Um dia falei pra mim mesmo que ia conhecer e viver aquela cultura. E desde então, durante esses anos alimentava o sonho de poder conhecer e assim realizar meu sonho de acompanhar e viver essa cultura maravilhosa. A partir desse momento ficou fácil a minha decisão. Juntei minha insatisfação pessoal com o sonho de conhecer o Festival de Parintins e decidi chegar de bike, pois queria fazer dessa minha viagem inesquecível, pois teria a chance com a viagem de conhecer vários estados e varias culturas diferentes. Assim eu procedi. Foi isso que me motivou. Sonho de conhecer com a insatisfação pessoal na qual eu vivia há alguns anos.

CF – Como foi seu trajeto de Batatais (SP) até Parintins (AM)?

DE – Bom, meu trajeto foi passando/cruzando o estado de São Paulo, depois cruzei a divisa com Minas Gerais onde cruzei todo o estado em 17 dias e mais de 1000 km pedalados para chegar a divisa do estado com a Bahia. Assim após 17 dias de MG, finalmente cheguei em Urandy/BA, que faz divisa com MG, a partir daí passei por todo sertão baiano, até chegar a capital Salvador, foram mais uns 15 dias ate chegar a capital baiana. Depois de passar por Salvador eu cruzo a divisa com o estado de Sergipe e a primeira cidade sergipana que passei foi Indiaroba/SE, a partir daí até chegar a capital sergipana  Aracaju foram mais uns 10 dias. Depois cruzei a divisa de Sergipe com Alagoas. Me lembro que estava no município de Neópolis/SE peguei uma balsa atravessei o rio São Francisco e finalmente cheguei em solo alagoano  no município de Penedo/AL. Após mais alguns dias cheguei na capital alagoana Maceió. Até aí já havia pedalado mais de 2.500 km. Onde a pandemia interrompeu minha viagem, pois interditaram todas as praias do litoral. Então tive a sensatez de retornar a minha cidade natal. Foi um balde de água fria, mas o meu amor pela vida falou mais alto. Era momento de cuidar da vida, assim como todo Brasil fez. Após isso foi uma questão de tempo chegar até Parintins.

Aquele sonho interrompido ficou na minha cabeça. Não me conformava. Foi onde decidi pegar um voo de SP a Manaus e um barco até Parintins juntamente com a Yara (minha bike), para a realização do meu sonho. Neste momento já não me importava se ia haver festival ou não. Só queria realizar meu sonho.

CF –  Quem financiou essa viagem sua?

DE – Essa viagem foi financiada por mim mesmo com minhas economias. Mas engana-se quem pensa que gasta muito. Eu não prezava por luxo nenhum. Acampava na maioria das vezes em postos de gasolina, corpo de bombeiros, praias, escolas e até mesmo albergues. E alimentação eu praticava o “recicle” sempre pedia nos restaurantes após as 14 horas as sobras. Comida que os clientes não pegavam e sobravam na pista. A cada 10 donos de restaurantes que eu pedia 9 me davam. Então não ficou tão caro assim. Mas é claro que quando sentia a necessidade de ficar numa pousada eu ficava também.

CF – Como você está conseguindo viver em Parintins? Já tem algum emprego?

DE – Estou vivendo por enquanto com minhas reservas, mas já esta acabando. Eu ainda não consegui um emprego, mas estou em busca incessantemente de uma oportunidade de emprego, lembrando que sou engenheiro civil formado há 10 anos e terapeuta especializado em dependência química e aconselhamento familiar, e quem estiver lendo essa matéria e puder me dar uma oportunidade de emprego ficarei muito grato. Eu realmente quero vencer aqui nesta ilha e doarei o que tenho de melhor.

CF – Finalizando, qual a sua impressão da ilha de Parintins e do seu povo? Era o esperado?

DE – Olha, eu já tinha uma impressão muito boa da ilha só por fotos e vídeos vistos no youtube, mas quando cheguei aqui tudo que eu senti nos vídeos caiu por terra, pois foi muito melhor do que eu imaginei. Uma cultura riquíssima, uma terra abençoada e de pessoas maravilhosas. Eu esperava que fosse ser bem recebido, mas para a minha surpresa positiva, foi muito mais do que eu esperava. Estou sendo tratado aqui com muito carinho e muita receptividade pelos cidadãos parintinenses tanto da nação azul e branca, quanto pelo contrário, pois há um respeito muito grande de minha parte. Quero aqui aproveitar a oportunidade e deixar meu sinceros agradecimentos a população parintinense e dizer que já me sinto um cidadão parintinense, não nasci aqui, não fui registrado mas de estrela eu já sou e me sinto um verdadeiro cidadão parintinense, apaixonado por essa terra abençoada, por essa ilha encantada, pela cultura do Amazonas, pelos amazonenses e principalmente pelo meu boi Caprichoso. Agradeço ao O Jornal da Ilha pela oportunidade dada e a você Carlos Frazão que assim como eu chegou um dia aqui nessa ilha cheio de sonhos e hoje é um homem de caráter e que venceu por aqui, por merecimento. Obrigado Parintins eu te amo.

 

Amigo Diego, foi um prazer enorme te conhecer pessoalmente, já sabia da sua história, inclusive por um jornal lá da sua terra (JORNAL DA CIDADE DE BATATAIS) e muita linda a sua narrativa, que na certa vai agradar a todos que lerem. Muito obrigado, com fé em Deus, logo vais se estabelecer na cidade que, assim como eu, nós escolhemos pra Viver, Amar e se Orgulhar.

 

Por Carlos Frazão/JI

Fotos: Arquivo Pessoal de Diego Eduardo.

 

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