Gov-03

A VISAGEM DA MEIA NOITE

A sexta-feira prometia.

A sexta-feira prometia. O Manoel Bentes, dono de um pequeno comércio, estava animado. Ele sempre inventava uma desculpa em casa e saía para umas volteadas nos rendez-vous, como eram chamados os bordéis, locais de encontros que reinavam absolutos oferecendo aventura e prazer nas noites da pacata Parintins.

No final da década de 60, eram famosos o LS, Alice, entre outros. Algumas casas noturnas ficavam localizadas após o campo da aviação, antigo aeroporto, esconderijos perfeitos para os farristas, já que naquelas bandas da cidade havia poucas ruas, só caminhos mal iluminados. Pois bem. Manoel foi para a farra na companhia de um parceiro. Se divertiu com moças bonitas, bebeu e dançou. Mas, aquela noite de prazer logo se transformaria no pior pesadelo de sua vida.

Ele costumava voltar para casa por volta de meia-noite, atalhando caminho no campo da aviação, na altura onde mais tarde foi construído o Bumbódromo. O colega decidiu ficar no puteiro, como vulgarmente eram chamados os locais de encontros. Saiu sozinho e no caminho sentiu um cheiro estranho, forte, mas olhou de um lado para o outro e não viu nada. Nessa hora da noite não ficava ninguém na rua, mas Manoel não tinha medo, já estava acostumado.

Rapidamente ele chegou ao centro da cidade, na rua Clarindo Chaves, ao lado do muro do cemitério. Fazia  sempre esse trajeto e considerava uma rua como outra qualquer.

A certa altura, mesmo com a cabeça atordoada pelas doses de cachaça, começou a perceber que algo estranho estava acontecendo. Mas, “deixa estar” que o cheiro persistia. Olhou na sola do sapato, não tinha nada, mas o odor podre como enxofre o acompanhava e incomodava.

Já próximo da praça da Catedral, Manoel prestou atenção na sombra do poste de iluminação e teve certeza que uma coisa estranha estava à espreita.

 

Aaaahhhh pra quê!!

-E agora, o que eu faço meu Deus! Sozinho, não tenho pra onde correr – pensou.

O comerciante começou a rezar, virou de lado e viu a sombra que vinha logo atrás dele. Seria uma assombração, uma visagem, alguém querendo assustá-lo?

A cachaça passou na hora, os pêlos do corpo cresceram, a cabeça ficou gigante e ele pensou que ia morrer. Ofegante, apressou o passo e disse a si mesmo que não olharia para trás. Uma vez, sua mãe avisou  que não prestava olhar de frente para a aparição sobrenatural porque a pessoa morreria.

Então continuou andando apressado. Quando chegou na Avenida Amazonas, perto da Jonathas Pedrosa, resolveu correr. Manoel já não sabia o que era arrepio de tanto medo que estava. Correu até perto da esquina da rua Gomes de Castro, mas de canto de olho percebeu que a visagem também corria.

Quando ele andava, aquela coisa andava. Se ele corria, a visagem também corria atrás dele. O homem já estava desesperado, as forças indo embora, mas seguiu em frente, suando e aguentando o mijo. Quando o medo se apodera do corpo, a pessoa sente “tudo o que não presta”.

Faltava pouco para chegar em casa e Manoel começou a rezar em voz alta pedindo que Deus afastasse a alma penada. Na rua Furtado Belém, onde morava, a visagem chegou mais perto e o homem já estava nas últimas quando alcançou a porta de casa.

No sufoco, conseguiu passar a chave e entrou. Já estava fechando a porta, quando decidiu olhar e se deparou com a figura de um homem com o rosto todo esburacado, os cabelos brancos, com uma capa preta cobrindo parte do rosto.

Aquela assombração olhou bem para ele e falou: “foi a tua valência”. No linguajar dos antigos, tua valência quer dizer “ tua sorte”.

Manoel trancou a porta mais que depressa e se jogou no chão. Ele chorava, rezava, pedia perdão e agradecia a Deus por ter entrado em casa. Quase não conseguia se erguer tamanho sufoco. Tomou água, respirou fundo e se acalmou. Mas o cheiro parecia ter entranhado nele e não podia tomar banho porque o banheiro era no quintal. Manoel não dormiu nessa noite com a imagem da visagem na cabeça.

No outro dia contou sobre a aparição para os colegas de farra e todos os conhecidos ficaram sabendo da história. Por muito tempo os antigos vizinhos do Manoel Bentes contavam a história do amigo que foi perseguido pela visagem.

A aparição foi um santo remédio. Menoel nunca mais frequentou um puteiro enquanto foi vivo.

 

(Livro: OS FANTÁSTICOS CABOCLOS, CONTADORES DE HISTÓRIA/Peta Cid/ Arte: Ananda Cid)

*Peta Cid, colaboradora JI

 

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