Advento: tempo de nutrir-se interiormente

A verdadeira nobreza do ser humano consiste nisto: há nele um desejo, uma força latente, como uma energia fundamental, que o impulsiona a viver, que o ajuda a crescer e a melhorar continuamente, que aumenta a sua capacidade de resistência, que o estimula a alcançar aquilo que é o sentido de sua própria existência: a verdade, a liberdade, o bem, o amor.

Com a presença desta força interior, a pessoa se sente guiada e sustentada no caminho da maturidade humana, proporcionando-lhe saúde física, lucidez mental e limpidez afetiva. É esta força que comanda os melhores momentos da sua vida como um princípio ativo, dinâmico, criativo.

Quando esta força vital permanece atrofiada, a pessoa perde a direção, não desenvolve suas potencialidades e demite-se da própria vida. É decisivo saber descobrir e canalizar essas energias espontâneas, capazes de promover a integração e que são facilitadoras de mudanças frente à finalidade de sua vida.

No tempo do Advento, tomamos consciência que a raiz de nosso ser essencial constitui nossa autêntica vida. Descobri-la, alimentá-la e viver a partir dela constituem a plenitude de nossa realização.

Precisamos viver mais nas raízes de nosso ser; precisamos aprender a viver de uma maneira mais profunda e autêntica, a partir do núcleo mais íntimo de nosso ser.

E viver a partir de nosso ser essencial significa integrar e harmonizar todos os níveis de nossa pessoa: corpo, mente, afetividade, coração com a fonte de nossa vida. Trata-se de descer em profundidade, de encontrar o nosso centro, aquele ponto de gravidade por onde passa o eixo do nosso equilíbrio pessoal.

Advento, tempo das raízes! Tempo oportuno que nos mobiliza a descer ao nosso chão existencial, a olhar o mais profundo de nós mesmos e da realidade que nos cerca, para descobrir ali os ricos recursos de vida que ainda não foram ativados. O novo vem das raízes, vem de baixo, da base, do chão. A fecundidade tem lugar no oculto, nas entranhas da terra.

Na vivência do Advento nos é pedido que mergulhemos os pés no chão da vida, como as raízes mergulham na terra de modo profundo, silencioso e lento.

Aqui, o caminho para Deus implica descer ao nosso próprio chão e viver em sintonia com todas as expressões de vida, numa fraternidade universal. Subimos rumo ao Transcendente, quando descemos ao nosso chão. O movimento de enterrar profundamente as raízes possibilita alcançar a seiva, o pulsar da vida e o equilíbrio. A profundidade do enraizamento torna-se plataforma para poder alçar voo e ir além dos nossos limites e interesses estreitos, rumo ao Todo infinito.

O Advento nos faz lançar raízes no mais profundo de nossa condição humana e despertar todas as energias criativas, todas as grandes motivações adormecidas, toda bondade aí presente, toda decisão de assumir-nos como cooperadores de um novo tempo. Das raízes profundas brotam as respostas mais criativas e duradouras; das entranhas abertas emergem dinamismos que nos levam a ser presença inspiradora e diferente no contesto onde vivemos.

A experiência cristã, portanto, implica mergulhar os pés na terra. Expressões do nosso cotidiano como pôr os pés no chão, estar com os pés na terra, significam enraizar-nos e comprometer-nos com a realidade que nos afeta.

Um chão é sempre mais que um simples chão: cada chão revela lembranças, referências, medos, saudades; cada chão guarda histórias, presenças e tem força de memória. Há vida, pessoas, caminhos, acontecimentos, experiências.

Chão amplo é convite a sonhar alto, a pensar grande, a aventurar-se, ousar ir além, derrubar nosso modo arcaico de proceder, romper com os espaços rotineiros e cansativos.
Chão humano e humanizante porque carregado da presença divina. Cada pessoa é autêntico chão da eterna presença de Deus.

Advento é tempo de ver Deus em tudo e tudo em Deus a caminho do Natal do Senhor.

 

 

Irmã Maria Helena Teixeira

Colaboradora JI