Gov-03

As Tupinambás, as Comadres, o Artista e o Mensageiro

No início da década de 1990 o Boi Contrário passou a investir pesado nas suas tribos, levando boa parte dos artistas do meu Boi Garantido para o seu lado. Mas, no endereço da 31 de março “as comadres” preparavam um contra-ataque digno das reviravoltas que só o Boi do Povão sabia fazer. Nos fundos do QG, separadas por uma parede e uma porta que era restrita até para alguns membros do próprio Garantido, iria ser confeccionada em segredo, a Tribo das Tupinambás. Porém, em meados do mês de junho daquele ano, ela estava ameaçada de não sair no Festival, pois não tinha artista para a confecção. Então, articuladas como só as comadres eram, resolveram convidar e receberam, de pronto, o aceite de um dos artistas contratados pelo Contrário, para trabalhar de forma voluntária, durante o seu tempo livre (nas madrugadas), para o nosso boi – com uma condição: o segredo deveria ser absoluto, até para membros do próprio QG do Garantido!

Para garantir que o artista voluntário fosse todas as noites, as comadres determinaram que caberia ao “mensageiro” ir de bicicleta, jogar pedrinhas nas janelas do QG do contrário, que ficava em cima da loja do ‘seo’ Siridó, em frente à Prefeitura e conduzi-lo até a rua 31 de Março, na sua garupa, bem como levá-lo de volta, ao amanhecer do dia seguinte.

Passavam os dias naquela rotina, o Festival se aproximava, o trabalho começava a aparecer nos fundos do QG, a Tribo das Tupinambás se tornava realidade com o trabalho do artista e do discreto mensageiro de confiança das comadres. Até que chegou 29 de junho (segunda noite do Festival) e as portas do fundo do QG se abriram para a saída das costeiras, perneiras, braceletes e buás brancos, que vestiriam cerca de 50 índias cuidadosamente selecionadas no São José, para a missão de contra-ataque, do boi campeão.

Ao mensageiro coube, ainda, naquele ano, a função de fiscalizar o portão de acesso da concentração para a arena, abrindo e fechando, tão logo os itens passassem para que não houvessem aglomerações desnecessárias na arena.

As tupinambás começaram, então, a apontar no portão, com sua imponente tuxaua e sacerdotisa a frente. Atrás delas o sincronizado balançar dos braços com os buás nas cores branco e prata, que vinham já, desde a concentração, dançando e sendo cuidadosamente supervisionadas entre as duas fileiras de índias, para que nenhum descompasso ocorresse fora do ritmo da toada que estava sendo cantada para a entrada delas.

As comadres, apressadas, com as fichas de apresentação nas mãos, uma em cada ponta do portão, felizes! Tudo tinha dado certo! “Pisa no alho, o boi vai ganhar” – uma delas disse! O mensageiro fez o sinal de positivo, de repente, um nó na garganta, o frio na barriga. Coisas que só quem é do São José e ama o Festival sabe como é…

O mensageiro então esqueceu do portão momentaneamente ao passar da última índia, e mesmo sem ele ter pregado uma pena sequer em nenhuma das indumentárias, ele estava orgulhoso e resolveu assistir de frente a estreia das Tupinambás, feitas diante da adversidade e da garra do boi do São José.

“Morena bela eu vim te avisar,

Garantido acabou de chegar”…

(…) cantava a toada na voz do apresentador, que naquele ano acumulou também as funções de levantador de toadas. O Garantido ganhou naquele ano, inclusive no extinto item “tribos femininas”.

E o artista? Veja bem, esse resolveu que não obteve êxito competindo consigo mesmo, e voltou para o São José. Foi visto abraçado, naquele mesmo ano, com todos os “compadres” e “comadres” do QG da 31 de Março, na festa da vitória.

**por questão de ética os nomes e datas foram omitidos, embora os registros fotográficos e a identidade dos personagens possam ser de fácil dedução, para quem viveu o Festival daqueles tempos. É que “o mensageiro”, prometeu manter o segredo…

 

Por Ricardo Colares

Histórias do Meu Boi Bumbá/Facebook

 

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