Carta ao Senhor José Melo, Governador do Amazonas

Senhor Governador,

Talvez esta carta nem chegue ao seu conhecimento. E se chegar talvez o senhor não tenha tempo para ler. Imagino que as coisas não tem sido fáceis ultimamente. Mesmo assim, vou escrever, preciso o dizer o que estou sentindo.

Governador, sou só mais uma pessoa em um universo de milhares que cresceram ouvindo toada ao invés de cantiga de roda. Sou só mais uma cabocla que desde pequena sabia dançar dois pra lá e dois para cá. Sou da época que ia de dia no tablado, hoje bumbódromo, para catar lantejoulas e outras coisinhas caídas pelo chão para brincar de boi, sou da época que as meninas sonhavam em ser miss do boi, sou da época que aprender dançar boi bumbá era como tomar vacina ou ir à missa aos domingos, pois era levada ao curral por minha mãe.

Naquela época vivíamos em uma ilha que no mês de junho virava encantada com suas lendas e rituais. Fizemos isso por anos e fomos muito felizes assim, de um jeito muito simples. Um dia, alguns de nós que carregavam a paixão pelo boi no sangue e que saíram de Parintins começaram a falar de boi, a cantar e a dançar boi por onde iam. Principalmente em Manaus, lá a coisa explodiu e tomou conta do lugar. E em um piscar de olhos nos transformamos em uma paixão regional. Então, outros nos descobriram e viram como o que nós tínhamos era emocionante e diferente de tudo o que tinha pelo restante do Brasil. E disseram que iriam nos ajudar a crescer mais, tornar nossa terra famosa. E a coisa aconteceu, BOOM, de repente, meio na transição de adolescente e mulher, vi minha ilha se transformar na ilha da magia.

Em um período muito curto, a festa deixou de ser só nossa e passou a ser de Parintins para o mundo ver.

Passamos a fazer parte dos eventos mais incríveis do país, com uma caraterística singular, não tem outro igual no mundo inteiro. E a emocionar pessoas como como Steven Spielberg, Roman Polanski e Bill Gates.

Mais do que isso, os Bois de Parintins, se transformaram na bandeira cultural do Amazonas. Passamos a ser objetos de desejo por todo o Brasil. Nossa toada Tic, Tic tac foi hit do verão europeu em 96. Países como França, Alemanhã, Bélgica, Suíça, Polônia, Israel e Líbano todos se renderam ao nosso ritmo, fato inédito, quando se fala de música autenticamente brasileira. E tudo isso, foi consequência de nosso show. Do show protagonizado por nossos músicos, compositores, cantores e artistas.

Um show que não se resume a 3 dias de apresentações. É um ciclo que gira 365 dias. O boi não para, tem pessoas que trabalham nos escritórios, na limpeza, na segurança, na secretaria, nas finanças e em outros setores dos bois um ano inteiro. Ainda no segundo semestre começamos os trabalhos, de escolha de tema, de seleção de toadas e aí o ciclo se inicia…e muitas famílias dependem disso financeiramente. Quando os trabalhos de galpão iniciam, tem costureira, artista, escultor, pintor, soldador, ajudantes, ferreiros, marceneiros pesquisadores, historiadores, empurradores e mais um monte de gente esperando para ser contratada.

Aí você sai dos galpões e começa olhar ao redor e ver o homem da polpa de fruta que armazenou polpa para vender no festival, no pecuarista que investiu no gado, no pescador que passou noites sem dormir para pescar o peixe que abastecerá a cidade, o artesão que está fazendo seus colares para vender na praça, na dona Maria do tacacá, no homem da banana frita, no seu Zé que vende bombom no carrinho, no churrasqueiro, no X-Pio, no pessoal da farinha, nas pousadas, no tricicleiro, no moto-táxi, no taxista, no comercio, no flau, nas lanchonetes, nos restaurantes, no marceneiro, no pedreiro, nas faxineiras, nas babás, enfim, em uma cadeia inteira de pessoas. Não são poucas pessoas Governador, é uma cidade inteira. Junte-se a isso, todos os turistas que estão contando as horas para chegar em Parintins e assistirem um grande espetáculo. Para verem nada menos que um grande espetáculo.

Pergunte-se Governador. Qual outro evento no Amazonas recebe pessoas de várias partes do mundo? Que outro evento no Estado realmente projeta o Amazonas?

Sabe Governador, talvez esta carta nem chegue até o senhor, e talvez, se chegar o senhor não leia. Mas, se por uma fração de sorte, ela seja lida, que Deus o ilumine para avaliar tudo o que está em jogo. Porque neste momento a impressão que tenho, é que estão vendo só mais um evento, algo que não é prioridade.

Vou aproveitar só para lembrar que fome gera doença e violência. O senhor sabe disso. Nossa cidade está economicamente paralisada e precisando do oxigênio do festival para respirar, não nos tire o oxigênio por favor.

O Estado está arrecadando menos e as reduções de recursos precisam acontecer em todas as áreas. É necessário que todos entendam isso. Mas, em 2015 os bois tiveram um corte de 20%. Não conseguimos suportar mais uma grande redução sem comprometer a qualidade do espetáculo. E se não entregarmos um evento nos patamares que os turistas estão acostumados a ter, estaremos dando o maior passo de nossa falência. Não faça isso conosco, por favor, por favor…

Se tiver que existir mais uma grande redução que seja naquilo que não fará diferença para a cidade e para os turistas. Nos excessos que a anos são cometidos pela SEC, que leva milhares de pessoas para Parintins e que não contribuem em nada com nossa festa. Nem sequer comem nas nossas lanchonetes e bancas de churrasco.

Não precisamos pagar passagens, hospedagem, alimentação e ingressos com dinheiro público. Estas pessoas podem pagar por suas idas a Parintins. Não precisamos atender parentes e amigos de políticos. Isto é superfulo. É isto que pode ser deduzido da planilha de custo da SEC. Pense!!!!!!

Precisamos de infraestrutura, do espetáculo, das galeras e dos turistas. Isto nos basta. E é isto que queremos.

Nós somos dança, música, escultura, robótica, desenho, pintura, cênica e teatro, tudo em um só evento. Somos gente que construiu uma história secular. H I S T Ó R I A, não se apaga, não se desconstrói, HISTÓRIA SE PRESERVA, RESGATA e VALORIZA…

Não entre para a história, como o homem que desconstruiu a história.

De uma Cabocla de não fugir a luta.

 

Marcia Nogueira

Colunista JI

Foto: Cartaz do Festival 2016 do artista plástico parintinense Glemberg Castro

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