Gov-01

Contando causos…

Por Concy Rodríguez, Colunista JI

“A alcoviteira”

 

Na década de 20, na região do Mamoriacá-Am, vivia uma família que chamava a atenção pelo modo que vivia, todos falavam gritando, e não eram de “medir” as palavras.

O patriarca era o Seu Zé, e a matriarca era a Dona Coló, eles tinham três filhos, os dois rapazes, Bené e João, mas eram conhecidos pelo povo da região como “os paílhas”, só andavam juntos e o que um falava, o outro repetia, e mais a filha caçula, que atendia pela graça de Maria.

  1. Coló não tinha nenhum dente na boca, mas gostava de reparar os outros, inclusive seu filho Bené, que tinha os dentes estragados. D.Coló dizia: ‘Bené, vê se tu arruma ao meno uma rapariga pra casá contigo, se tu tivesse dente que prestasse, podia inté arrumá uma mulhé lá da cidade”

D.Coló era gorda, vivia sentada num tronco de abiueiro, quando os “paílhas” chegavam da pesca, ela logo dizia:” – Vai logo tratá esse peixe, que já quero cumê.”

Bené retrucava: “Mar mãe, a Maria num faz nada, manda ao meno ela escamá…”

João, o irmão, também reclamava, “é mãe, manda a Maria escamá…”

Dona Coló respondia: – “Mar num tô dizeno!! Maria tá cansada, passou a tarde tirando meus piolho…”

  1. Coló queria que Maria casasse com um fazendeiro da região, embora não tivesse atrativos físicos.

Um dia Maria foi convidada para ir à cidade de Faro com uma tia, para ajuda la com umas costuras, por ocasião da festa de N. S da Assunção.

Depois de quinze dias, Maria volta para casa, trouxe consigo apenas umas roupas usadas como pagamento. D. Coló deu lhe logo “uma no olho.” “-Marrolha só, pôca misera, vai pra cidade e vorta com as mão abanando, num troxe ao meno um extrato.”

Passados dois meses, uma noite D.Coló sentiu algo diferente em Maria, ela disse:- “Maria sua abestalhada, tu num tá será prenha? Tua barriga tá já demais tufada”

Maria disse que a dois meses não ficava “de bode”, não falava nada com medo de ser expulsa de casa por Seu Zé,  que era calado, mas muito brabo…Ao ouvir isso, D. Coló foi categórica:  “Num vai te acuntecer nada, dexa esse tonto se fazer de leso!!”

E assim as duas a partir desse dia, fizeram de tudo para esconder a prenhez de Maria.

Numa tarde, Maria começou a sentir sua barriga endurecendo demais… Vixi, já estava na hora de chamar a parteira.

D.Coló chamou na surdina os pailhas, que não se deram nem o trabalho de perguntar a causa da busca.

Durante a madrugada, todos ouviram um choro de nenê. Maria acabava de parir. Seu Zé desperta, vai logo fazendo o maior escândalo: “Que diacho de choro é esse que tô escutano?”

  1. Coló retruca: Cala boca seu tonto, abestalhado não se pode nem parí em paz nessa casa? Vai deitar que é…”

Seu Zé não se conformava, gritava e perguntava “quem foi o cabra que “ponhô” filho em ti Maria??”

Enquanto isso Maria já dava o peito a Genésio,  nome que D. Coló acabara de pôr no recém nascido. Seu Zé continuava a gritaria. “-Vou matá, vou matá, cadê minha espingarda Coló?? Ela respondia – “Tu não mata nem formiga seu bocó, deixa Maria dá mama, senão o leite vai “endurecê”, o nenê já tá fora, num dá pra empurrá pra in “drento”, sai daqui antes que eu te sangre”

Seu Zé não se conformava com a situação, estava descontrolado: – “Tu não tem corage sua ‘alcoviteira’, safada velha.”

Enquanto a discussão seguia, Bené e João, os pailhas, já estavam  a postos, preparando os caniços e as malhadeiras para mais um dia de pesca, eles não deram opinião.

Ainda de madrugada, Dona Coló preparou um cheiroso café, moido no pilão da casa, chamou a parteira para deliciar um delicioso café preto acompanhado com raízes de cará, macacheira e pé de moleque.

Em seguida, os pailhas e a parteira atravessaram o rio em uma  pequena canoa. Seu Zé não deu “as caras” no café da manhã, estava amuado em sua maquira remendada.

Enquanto isso,  D. Coló, já previa que era questão de tempo para que todos se apegassem a Genésio, o curumim de saco roxo “arranjado em Faro”, que já nasceu de mãos abertas, esse não ia ser escasso, segundo Coló, a avó coruja e muito, muito alcoviteira.

 

Concy Rodríguez

Contadora de causos.

 

In memorian a

Dulcelina Rodrigues Marinho.

Minha genitora.

 

 

você pode gostar também