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Interfaces da cultura no Festival de Parintins: os desafios de um turista

Fazer parte da maior festa épica a céu aberto do norte do Brasil deixou de ser uma coisa barata e acessível a todos. O que era uma manifestação cultural do povo tornou-se algo totalmente mercantilizado e elitizado. Para apreciar a maior festa folclórica do norte do Brasil é necessário ultrapassar diversas barreiras.

O apaixonado por boi-bumbá encontra seu primeiro desafio logo em Manaus. Para chegar em Parintins, o turista tem duas opções: viajar de barco ou de avião. A primeira é a mais rentável tanto no período do Festival Folclórico como no restante do ano, tendo em vista que, na época da festa, as passagens custam de R$ 150,00 a R$ 300,00, enquanto no restante do ano o preço gira em torno de R$ 90,00. A segunda opção, que é a mais procurada por quem pretende economizar o tempo que seria gasto em uma viagem de 16 horas de Manaus a Parintins, tem uma variação de preço que vai de 400 a R$ 1mil. Ao pousar ou atracar na cidade, o turista se depara com a falta de serviços de transporte público, e tem como opções pagar uma corrida de R$ 4,00 a um moto táxi, R$ 30,00 a um taxista ou de R$ 15,00 a R$ 20,00 a um tricicleiro.

Além de todos esses gastos, quem participa do Festival precisa também de um lugar para ficar hospedado. Para não haver preocupação com essa questão, há a opção de pacotes de viagens – passagem aérea e hospedagem – que custam de R$ 2500,00 a R$ 4100,00, com direito a estadia de três dias em uma pousada da cidade. Além disso, muitas famílias alugam suas residências durante os três dias de festa dos bois azul e vermelho, com um preço que varia de R$ 1 mil a R$ 10 mil.

Para acompanhar as disputas dos bois, o turista pode acompanhar o espetáculo de graça nas arquibancadas gerais, pagar de R$ 600,00 a R$ 1050,00 em cadeiras numeradas ou arquibancada especial. Poucos camarotes e ingressos de área vip são comercializados, pois a maioria são repassados aos patrocinadores da festa.

A vinda a Parintins para participar do Festival Folclórico torna-se algo mais complexo a cada ano. Preços altos atrapalham quem quer acompanhar de perto a mais bela manifestação cultural do Amazonas. Sendo uma festa que chama atenção de todo o Brasil, como boa parte do mundo, o Festival possui um grande fluxo de turistas, o que gera uma maior circulação de dinheiro. A partir desse aumento no fluxo de pessoas nos dias de festa, aumentou-se preços nas mais diversas camadas do comércio local, fazendo com que o festejo torne-se elitizado.

Com o salário mínimo um pouco acima de R$ 700,00 fica fácil de reconhecer que o festival folclórico não é feito para o trabalhador parintinense, pois o mesmo não tem condições financeiras de comprar ingressos. Todavia, os gastos não se limitam apenas ao Bumbódromo, em vista que há alteração de preço em tudo. Aproveitando o fluxo de turistas na cidade, muitos aproveitam a festa para faturarem “um a mais”. O Festival de Parintins que tinha entre suas singularidades ser uma festa popular passou a ser uma festa elitizada.

 

Daniel Sicsú/JI

Foto:Arquivo JI

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