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Juarez Lima: De pintor de cerca do curral a quatro décadas de arte

A experiência de Juarez no carnaval das grandes capitais do Brasil lhe proporcionou novos conhecimentos artísticos, trazidos para Parintins, mudando e revolucionando o Festival.

Segundo o cenógrafo e produtor cultural amazonense, Juarez Lima (54 anos), apaixonado pelo Boi Caprichoso, descobriu seu amor pela arte como pintor da cerca do curral Zeca Xibelão aos seus 14 anos de idade.

“Foi meu primeiro trabalho. Naquela época, não tinha quem pintasse e me ofereci para ajudar o artista Zé Maria, que junto com ‘seo’ Laurimar Leal eram os artistas do boi”, relembra com alegria o artista parintinense que revolucionou o Festival de Parintins, com uma nova forma de apresentação das alegorias na arena do Bumbódromo que no dia 23 de junho completou 40 anos de contribuição artística com o Festival Folclórico dos Bois Caprichoso e Garantido.

 

 

O Início

Aluno da antiga oficina de artes plásticas e escultura do bumbá, movido pela sua vontade de colaborar com o boi, até hoje plausiva, o levou a arte plástica como ajudante de pintor de irmão Miguel de Pascalle, Zé Maria e com o mestre Jair Mendes (1980) que até hoje encanta o mundo com seu trabalho alegórico.

Assim, dotado do dom da arte, aos poucos aprendeu além de dominar a pintura, aprendeu a arte de elaboração de alegorias nos galpões, considerado artista do boi-bumbá Caprichoso, a partir de 1987.

 

Carnaval e a Revolução do Festival

 

Do trabalho simples, o levou para trabalhar fora da cidade natal. Em 1987, iniciou no Carnaval da Capital (Manaus) na Escola “Sem Compromisso”. Com trabalho reconhecido, à convite do carnavalesco Joãosinho Trinta trabalhou na Beija-Flor de Nilópolis e depois Salgueiro, no Rio de Janeiro. O parintinense também deixou sua marca registrada no Carnaval paulista, nas Escolas de Samba X-9 Paulistana e Nenê de Vila Matilde.

Sua experiência no carnaval das grandes capitais do Brasil lhe proporcionou novos conhecimentos artísticos, trazidos para Parintins, mudando e revolucionando o Festival. “Antigamente o nosso festival, na maioria das vezes, utilizávamos madeira e papelão nas alegorias. Foi no Rio de Janeiro no convívio com excelentes artistas que absorvi novos conhecimento e os inserir na nossa festa”, passando Juarez a se transformar no “mago da ousadia e grandiosidade”. 

 

Caprichoso Soberano

 

Nas década de 1980 para 1990, o artista enaltece que o Boi Caprichoso foi soberano e iniciou no festival com esse novo método de se fazer alegorias, com maiores dimensões, movimentos e materiais, graças a Irmão Miguel, Jair Mendes e Juarez Lima, inventando, reinventando, sempre em constante evolução. O artista relembra que também trabalhou duas temporadas no Boi Garantido (1997 e 1998), mas sua vida até hoje é de dedicação ao Boi da Estrela na Testa.

 

Altos e Baixos

 

Além dos altos, Juarez conta que recebia muitas críticas devido às inovações iniciadas por ele no festival, haviam pessoas que chegaram a duvidar e criticar a sua arte, passando a conduziu uma nova geração a se renovar, a buscar uma nova manifestação da arte da criação, e formando na arte novos aprendizes. “Quando fui pro Rio de Janeiro, muitos me ironizavam, mas quebrei isso, quando Joãosinho Trinta esteve em Parintins e comprovou meu potencial com a apresentação da alegoria do Mapinguari e ele disse: ‘Você tinha razão!’. Senti muito quando ele faleceu e hoje sinto viva dentro de mim essa linhagem de Irmão Miguel e Joãosinho, e também de Mestre Jair, que considero um pai. Minha tristeza é que nessa época não tínhamos como registrar”, exaltou.

 

Juarez e a nova geração

 

“Custou muito para chegar até aqui, e o quanto é difícil se manter nesse patamar”. Apesar da experiência adquirida ao longo dos anos, muitos dizem que estou ultrapassado. “Mas, eu me espelho no vinho, porque quanto mais me batem mais eu tento ser melhor!”, ressaltou Lima.

Nesse reinventar através dos tempos, digo que podemos sempre surpreender, a exemplo, do 50º Festival (2018) que em um momento marcante, com somente um módulo, com a aparição da Cobra Grande – Boitatá, que “explodiu” em fogos, luzes e cores o espetáculo do bumbá na arena do Bumbódromo.

 

Sua Arte em meio a fé

O Dom do cenógrafo foi para além dos galpões e movido pela sua fé a Nossa Senhora do Carmo (padroeira da cidade), abrilhanta junto com outros artistas da Ilha o forte momento religioso, com a Romaria das Águas e a construção do Andor da Santa católica, esse ano interrompido, devido a pandemia do novo coronavírus – Covid-19.

 

Reconhecimento

O artista apela para reconhecimento maior do poder público a classe. Fica feliz feliz pelo anúncio do prefeito Bi Garcia em transformar o Palácio Cordovil em um Museu Histórico, mas lamento que ao longo desses anos, o registro da maior festa folclórica do país seja somente na arena. Existe a necessidade de se fazer mais pela nossa cultura. Infelizmente é triste ter uma cultura tão bela e parecer que tudo o que fizemos não tem valor, se perde no tempo. Fico nesse clamor, pois parece que as pessoas só enxergam o artista quando ele vai pra fora mostrar seu trabalho. Temos uma identidade forte e que precisa ser valorizada, a nossa arte”, reforça o apelo.

 

Projetos Futuros

Além do Festival de Parintins, em Manaus, sua residência se transformou em ateliê, para criação de projetos em quadro e pintura em relevo, trabalhando junto com os filhos Thyago e Juarez Filho.

De acordo com Juarez, outra grande novidade futura, será a exposição em documentário, revistas, físicas com exposição de obras em tela e maquetes em alusão aos 40 anos dessa minha história em meio a arte.

 

Kedson Silva/JI

Fotos: Arquivo Pessoal e Boi Caprichoso

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