Livro traz estudo crítico sobre a literatura infantojuvenil produzida no Amazonas

Contos e encantos na literatura infantojuvenil amazonense (Apris Editora), livro da professora mestre Delma Pacheco Sicsú, introduz o estudo da produção regional desse gênero literário nos círculos acadêmicos.

A obra é resultado da sua dissertação de mestrado no Program de Pós-Graduação de Letras e Artes da Universidade do Estado do Amazonas (PPGLA/UEA), 212-2013. Delma, atualmente, é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Braasília (PPGL/UNB), turma 2018.

Ela pesquisou 19 narrativas dos escritores Elson Farias, Zemaria Pinto, Thiago de Mello, Wilson Nogueira, Roní Wassari Guará, Jaime Diakará e Yaguarê Yamã, todos com livros publicados pela Editora Valer. Os três últimos são escritores indígenas e seus livros circulam desde 2001.

“Uma das maiores contribuições desse livro é transitar entre o individual das representações ficcionais do Amazonas e demonstrar a complexidade dessas obras em direção ao universal e, nesse percurso, ter os olhos atentos para a complexidade amazonense da qual emanam o corpus silenciado na obra”, observa o prefaciador da obra, o professor doutor em Literatura da UnB Danglei de Castro Pereira.

Delma enfatiza, na apresentação, que [o livro] contempla o fascinante mundo da literatura infantojuvenil por meio das narrativas amazônicas de modo claro, sendo, portanto, essencial para quem deseja iniciar-se nessa área. Voltado principalmente para pesquisadores, educadores, estudantes de graduação e pós-graduação das áreas de Letras e Pedagogia”.

A pesquisa, como informa a autora, surgiu das inquietações da sala de aula. Professora de Literatura do Centro de Estudos Superiores de Parintins (AM), ela notou que os graduandos “tem em mente que essa literatura não seja tão significativa com outras literaturas da grade curricular do curso”.

Esse equívoco, segundo ela, vai se esclarecendo à medida que a disciplina avança. “Os alunos começam, então, a ter um olhar mais crítico acerca da importância da literatura infantojuvenil e passam a vê-la em pé de igualdade com outras literaturas oferecidas no curso”, explica.

Outra questão levantada pela autora, diz respeito à falta de pesquisa, no meio acadêmico, sobre essa literatura. Isso decorre, na opinião dela, do fato de a literatura infantojuvenil enfrentar problemas como o não reconhecimento como obra de arte, pois, por ser voltada para um público não adulto, é vista como um gênero menor na literatura amazonense.

“Fato esse percebido na produção de escritores amazonense consagrados, mas que não se dedicaram a escrever também para crianças e jovens”, acentua.

Teoria

A tese está fundamentada, teoricamente, nos estudos do imaginário, com destaque para os de Gaston Bachelard, Gilbert Duran, Trindade e Paplatine e Maria Zaira Turchi. Delma explica, todavia, que a análise das narrativas se desenvolve por meio das categorias Regime diurno das imagens e Regime noturno das imagens, desenvolvidas por Duran no livro As estruturas antropológicas do imaginário.

“De um lado está a razão embasando o homem diurno e cientista, por outro lado têm-se a imaginação, essência do homem poesis, cujo ato de criação se realiza no regime da noite. Se no regime Diurno têm-se a presença da polêmica, da antítese, no regime noturno têm-se a plenificação do eufemismo”, explica a autora.

É importante destacar que o curpus teórico e as análises estão distribuídos por todo o texto, fato que torna a obra acessível a leitores não acadêmicos ou a acadêmicos de outras áreas do conhecimento.

Apelo

Há, no desfecho da obra, a constatação de que “é preciso haver mecanismos que estimulem a pesquisa e a divulgação dessa literatura voltada, sim, para crianças e jovens, mas que exige a mesma atenção de críticos e escritores da literatura para adultos”.

Ela acrescenta: ” Dar, portanto, uma atenção especial à literatura infantojuvenil amazonense, é poder também resguardar a memória do povo amazônico presente nos mitos, nas lendas, nas habitações, no homem, nos animais e na floresta presentes nessa literatura. Uma literatura construída num diálogo entre o imaginário literário e amazônico manifestos nesses textos”.

Imaginário como janela para a compreensão da vida amazônica

[Por Delma Sicsú]

O cenário literário amazonense, na última década deste século, apresenta uma vasta produção literária para o público infantojuvenil. Essas produções, todavia, precisam sair da penumbra e serem mais divulgadas, mais discutidas tanto no meio acadêmico quanto em outros espaços.

Como toda literatura que está começando, é lógico que a literatura infantojuvenil amazonense apresenta certos problemas tanto no texto verbal como nas ilustrações. Esses problemas, contudo, não a invalidam enquanto obra de arte, mas abrem espaço para pesquisas e críticas.

Tais pesquisas podem contribuir para que se comece a olhar para a literatura infantojuvenil amazonense não apenas como texto feito para o puro deleite, mas como obras que têm uma carga de moralização muito grande, limitando a fruição e a possibilidade do leitor colocar em ação em seu imaginário.

A partir das 19 narrativas utilizadas neste estudo, observou-se que as produções literárias voltadas para o público infantojuvenil ora se pautam exclusivamente na literatura oral, ora são produzidas pelo olhar da cultura letrada.

As narrativas indígenas, por exemplo, utilizam como ingrediente principal de suas criações os elementos da literatura oral, a partir dos mitos, das lendas e do saber tradicional desses povos presentes nas histórias de Roni Wasiri Guará, Jaime Diakara e Yaguarê Yamã.

Diferentes das narrativas indígenas, as histórias de escritores não indígenas são produzidas numa mescla da literatura do imaginário de outras culturas e com o imaginário amazônico. Isso deve ao fato de que os escritores dessas narrativas, diferente dos indígenas, pertencem a uma cultura letrada.

A partir dos estudos de Bachelard (1993) e de Durand (2002), pode-se perceber que o imaginário presente nas narrativas elencadas para este estudo, é fruto não apenas do contexto histórico e social da Amazônia, mas dialoga também com outras culturas. Assim, da mesma forma que Durand (2002) afirma que o imaginário não tem um sentido fechado, pois se configura, significa e ressignifica conforme seu contexto histórico e social e interferências recebidas de outras culturas, o mesmo se pode afirmar do imaginário presente na literatura infantojuvenil amazonense.

Nas narrativas utilizadas neste estudo, percebeu-se o quanto o imaginário literário amazônico sofreu influências de outras culturas, mas também criou seu próprio imaginário ao agregar aos textos literários elementos específicos da região, ilustrados na figura de seres encantados, na linguagem, na presença de animais e vegetais típicos da região e na própria representação da Amazônia presente nesses textos.

Lançar mão do imaginário literário para investigar a literatura infantojuvenil amazonense é descobrir nessa literatura um campo vasto de pesquisa que dialoga com outras áreas do conhecimento. Por isso, Durand (2002) considera o imaginário como um campo multidisciplinar.

Diante do exposto, pode-se dizer que as obras utilizadas neste estudo, na perspectiva do imaginário literário, são ricas em símbolos, cujos significados não se esgotam em si mesmos, mas abrem diferentes possibilidades de leitura.

Da mesma forma que Durand (2002) categorizou o imaginário literário em Regime Diurno e Noturno das imagens, o mesmo se pode aplicar na literatura infantojuvenil amazonense a partir dos símbolos presentes nas 19 obras selecionadas para esta pesquisa.

Os símbolos presentes nas 19 narrativas mantêm o significado de outros contextos culturais, mas também ganham novos sentidos de acordo com o modo de ser, de viver e de estar na Amazônia. Essa mistura de significações é percebida principalmente nas obras produzidas por escritores não indígenas.

Os escritores indígenas, por não pertencerem a uma cultura letrada, mantêm suas histórias na essência da literatura oral. Por isso, utilizam recorrentemente em seus textos o mito, a lenda e o saber tradicional de seu povo.

Compreender como se inscreve o imaginário literário na literatura infantojuvenil amazonense, é compreender também a vida e o homem amazônico; é ter em mãos a possibilidade de ler o que há por de trás de determinados símbolos e perceber como eles influenciam no modo de pensar e de agir dos que habitam a Amazônia.

Os estudos sobre o imaginário literário, nas 19 narrativas, mostraram o quanto a literatura infantojuvenil amazonense recebeu influências de outras culturas, mas como também os escritores lançam mão de certos símbolos para identificar as peculiaridades desse espaço, mostrando, assim, que, na Amazônia, existe um imaginário específico, cuja bacia semântica vai se construindo conforme as mudanças históricas e sociais desse espaço. Essa bacia semântica se faz presente nos textos até mesmo nas ilustrações trazidas nas histórias.

Os estudos sobre o imaginário mostram ainda como ele é importante na recepção dos textos literários. Através dos símbolos presentes nas histórias, os leitores poderão construir sua própria história, lendo e ressignificando o texto literário.

As pesquisas sobre o imaginário literário e outras questões em torno da literatura infantojuvenil amazonense precisam ser discutidas, avaliados, exigindo, assim, que os escritores dessa literatura comecem atentar para o que estão produzindo, e assim possam melhorar cada vez mais suas obras voltadas para crianças e jovens.

Para que essas questões possam ser discutidas, é necessário que haja um espaço onde o leitor e o crítico dessa literatura possam externar suas opiniões, levantando situações problemáticas no texto, mas também propondo sugestões para a solução desses problemas.

Lançar mão da rede virtual a partir de sites pode ser uma alternativa para a criação desse espaço de discussões, pois considera esse suporte eletrônico uma ferramenta fundamental na recepção da literatura infanto-juvenil.

Uma vez que se dê condições para o usuário expor suas opiniões, estará se criando uma crítica em torno dessa literatura pouquíssimo conhecida e investigada.

Além de ser um espaço de discussão, os sites servem principalmente para arquivar a literatura infantojuvenil amazonense e, por extensão, contribuem significativamente para sua divulgação e para o seu reconhecimento como obra de arte por parte de críticos, professores, alunos, crianças e jovens.

Como dito anteriormente, a literatura infanto-juvenil, embora pouco divulgada e pouco conhecida, oferece um campo vasto de investigação literária que não se esgota apenas na perspectiva do imaginário, mas abre um leque de possibilidades de pesquisa em outras vertentes da crítica literária.

Todavia, é preciso haver mecanismos que estimulem a pesquisa e divulgação dessa literatura voltada, sim, para crianças e jovens, mas que exige a mesma atenção de críticos e escritores da literatura para adultos.

O site lendoamazonia.com.br tem como objetivo maior divulgar a literatura infanto-juvenil amazonense e, por extensão, contribuir para a sua divulgação e crítica por meio da interação com o usuário.

Dar, portanto, uma atenção especial à literatura infantojuvenil amazonense, é poder também resguardar a memória do povo amazônico presente nos mitos, nas lendas, nas habitações, no homem, nos animais e na floresta presentes nessa literatura. Uma literatura construída num diálogo entre o imaginário literário e amazônico manifestos nesses textos.

 

 

 

Fonte:    https://www.amazonamazonia.com.br/

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