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Maria, Mãe da Misericórdia

Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. A doçura do seu olhar nos acompanhe neste Ano Santo da Misericórdia para podermos redescobrir a alegria da ternura de Deus. Ninguém como Maria conheceu a profundidade do mistério de Deus feito homem. Na sua vida, tudo foi plasmado pela presença da misericórdia feita carne” (MV 24).

 

Maria, Mãe de Ternura e de Misericórdia

Em comunhão com a Igreja universal, não podemos deixar de integrar o Ano Santo da Misericórdia e no nosso percurso pastoral encontramos o rosto maternal de Maria, Mãe da Misericórdia. Este aspeto valorizar ainda mais o cerne da mensagem de Fátima que é a Graça e a Misericórdia. Em Fátima, Deus deu também uma lição sobre Si mesmo, sobre o seu modo de ser e de agiruma lição sobre a misericórdia que pertence a Deus como traço essencial.

O grande protagonista do acontecimento Fátima é o próprio Deus misericordioso que, através de Maria, Mãe de Jesus e da Igreja, envia uma mensagem e um apelo concreto ao mundo numa situação trágica. Maria fala-nos de Deus com a linguagem do seu coração materno.

É certo que Maria não é o centro do cristianismo. Não pode de modo algum substituir a Cristo, único mediador e salvador. Mas ela tem um lugar e uma missão singular ao lado de Cristo e ao serviço de Cristo, da Igreja e da humanidade, precisamente como Mãe do Salvador, unida a Ele por laços indissolúveis.

O Concílio do Vaticano II afirma que “Maria, pela sua participação íntima na história da salvação, reúne por assim dizer e reflete em si as mais altas verdades da fé” (LG 65). E São João Paulo II explicita: “Ela é como um espelho em que se refletem, da maneira mais profunda e luminosa, as maravilhas de Deus” (RM 25).

O nosso amor a Maria é muito mais do que uma mera devoção sentimental; é, antes, a contemplação da beleza do amor misericordioso de Deus por nós, pela humanidade dispersa que Ele quer reunir; é a contemplação da beleza da Igreja como Povo do Senhor, de que ela é membro eminente e mãe amorosa; e da beleza da vida com Cristo, de quem ela foi mãe e primeira e perfeita discípula.

 

  1. Muitos títulos, uma só Senhora, uma só Mãe

Desejaria ainda esclarecer um equívoco que perpassa por vezes no meio do nosso povo.

São muitos os santuários marianos no mundo e inúmeras as invocações a Maria. Há pessoas convencidas de que estes títulos se referem a “Nossas Senhoras” diferentes, a ponto de alguns discutirem qual é a mais poderosa ou mais milagrosa.

Mas só existe uma Nossa Senhora, a Mãe de Jesus e nossa Mãe, que acompanhou e acompanha os seus filhos em todos os lugares e culturas e nos ensina a buscar a unidade na fé e no amor em Cristo. Por isso, ela não tem problema em apresentar-se com vestes diversas e em cores de pele diferentes. Não tem receio em falar-nos em distintas línguas e linguagens.

Ao longo da história, o grande amor dos fiéis foi dando diferentes títulos à Maria, segundo os lugares em que foi vivenciada a sua presença (Guadalupe, Aparecida, Lurdes, Fátima…), segundo os mistérios da sua vida com Cristo (Anunciação, Encarnação, Assunção…), segundo a forma como experimentaram a sua ajuda ou conforto nas várias situações da vida (Mãe de Misericórdia, Senhora da Saúde…). Mas é sempre a mesma e única Senhora que se manifesta ou atua nos diferentes lugares e de diversas formas.

 

A FIGURA DE MARIA NA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO

 

Vamos agora refletir sobre o mistério da salvação comunicado a Maria, no qual ela é chamada a participar e colaborar de modo singular e extraordinário. Trata-se de uma meditação, em estilo narrativo, seguindo os passos da Mãe do Senhor tal como a descrição dos Evangelhos nos permite acompanhá-los desde Nazaré, Belém, Caná até ao Calvário e ao Cenáculo do PentecostesSeguimos a bela indicação de São João Paulo II: “A Igreja olha Maria através de Jesus, como olha Jesus através de Maria” (RM 26). Assim compreendemos a posição única de Maria na história da salvação, no mistério de Cristo e da Igreja.

 

  1. O grande anúncio a Maria (Lc 1, 26-38): Mãe do Filho de Deus

A importância de Maria na história da salvação torna-se clara, se considerarmos o título mariano fundamental de Mãe de Jesus, Mãe do Senhor, que lhe é anunciado como Filho do Altíssimo, e por isso Mãe de Deus. Ela é introduzida definitivamente no mistério de Cristo, mediante o acontecimento da anunciação do Anjo.

O mensageiro de Deus visita-a e comunica-lhe precisamente o anúncio do maior acontecimento da nossa história: a incarnação do Filho de Deus.

É interessante notar que o relato inicia com o convite à alegria. “Alegra-te, ó cheia de graça, o Senhor está contigo” – são estas as primeiras palavras que o Anjo dirige a Maria. Não se trata de mera saudação usual, como poderia parecer à primeira vista. Lidas à luz das profecias do Antigo Testamento, constituem um anúncio de alegria pela vinda do Messias (Salvador). Trata-se de uma saudação que marca o início do Evangelho como Boa Nova comunicada a Maria e através dela à humanidade.

De facto, o Anjo apresenta à Virgem Maria o projeto da salvação de Deus de vir morar no meio do seu povo e pede-lhe a colaboração para ser mãe do Redentor que lhe é anunciado como Filho do Altíssimo. Ela fica surpreendida e perturbada, mas o Anjo diz-lhe uma palavra de consolação: “Não temas, pois achaste graça diante de Deus… A Deus nada é impossível” (Lc 1, 30.37). Como quem lhe diz: tu levas Deus em ti, mas Deus leva-te a ti!

Maria pôde assim dar a sua resposta livre, o seu sim: “Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua Palavra”. Colocou-se totalmente à disposição do projeto salvífico de Deus em favor dos homens, abriu-Lhe de par em par as portas do seu coração e do seu seio, tornando-se morada do Altíssimo. O sim de Maria é a porta pela qual Deus entra na nossa história assumindo a natureza humana.

A maternidade de Maria não é algo meramente biológico. É um acontecimento de fé: “recebeu a Cristo no seu coração pela fé, antes de O receber no seu seio” (Santo Agostinho). Como mãe do Redentor, partilhou intimamente toda a sua vida e missão, permanecendo a seu lado desde o berço até ao calvário. “Cristo e a sua Mãe são inseparáveis” (Papa Francisco). Ela tornou-se a primeira crente e discípula perfeita do Filho, modelo de todos os crentes.

Para realizar esta missão materna, Deus preparou-a de modo especial. O mensageiro não a chama pelo nome próprio Maria; chama-a pelo nome dado por Deus, “a cheia de graça”, isto é, cheia do amor de Deus que a torna toda santa, preservando-a de todo o contágio do pecado desde o início da sua existência. Além disso, explicita a maternidade virginal de Maria para ficar clara a origem divina de Jesus, Filho de Deus feito homem, pela obra inimaginável do Espírito Santo.

Como é que Maria na sua maternidade ilumina a fé e a espiritualidade do cristão e a missão pastoral da Igreja? Eis dois belos textos dos Papas João Paulo II e Bento XVI, respetivamente:

“Maria leva-nos a aprender o segredo da alegria cristã, lembrando-nos que o cristianismo é antes de mais Evangelho, boa notícia que tem o seu centro e o seu conteúdo na pessoa de Jesus Cristo, o Verbo feito carne, único Salvador do Mundo” (João Paulo II, RVM 20).

“A Virgem Maria, pelo seu papel insubstituível no mistério de Cristo, representa a imagem e o modelo da Igreja. Também a Igreja, como fez a mãe de Cristo, é chamada a acolher em si o mistério de Deus que habita nela… a refletir cada vez mais o seu verdadeiro rosto no qual Deus se aproxima e encontra os homens. A Igreja, corpo vivo de Cristo, tem a missão de prolongar na terra a presença salvífica de Deus, de abrir o mundo a algo maior do que ele mesmo, ao amor e à luz de Deus” (Bento XVI, Homilia, 26/03/2012).

Perante a grandeza do mistério da maternidade divina de Maria, rezemos a conhecida antífona: “Virgem Santa Imaculada, não há palavras dignas do vosso louvor: por vós recebemos o Salvador do mundo, Jesus Cristo, Nosso Senhor”!

 

  1. A grandeza da fé de Maria (Lc 1, 39-45): “Feliz de ti que acreditaste”

As boas notícias são para se comunicarem. Não há coração tão grande que seja capaz de as conter: sente-se necessidade de as partilhar com os amigos, com os mais íntimos. Assim, ao acabar de dizer o “sim” (faça-se), como discípula perfeita, Maria parte logo em missão. Não guarda para si a graça recebida. O seu primeiro gesto foi dirigir-se ‘apressadamente’ em visita à prima Isabel para partilhar a boa nova, o segredo íntimo que ambas traziam dentro de si, para lhe levar Cristo e, com Ele, a ternura e o afeto da companhia e do apoio. Eis a discípula missionária, a Senhora da prontidão e da ternura.

Isabel, por sua vez, antecipou-se exclamando: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre. De onde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?”. Esta última frase da saudação é semelhante à que no Antigo Testamento era dirigida à Arca da Aliança. Assim, Maria é a Arca Santa em pessoa e traz em si a presença de Deus que é fonte de consolação e de alegria.

Por fim, Isabel mostra que a raiz de toda esta alegria é a fé: “Feliz de ti que acreditaste”! Exalta a grandeza da fé de Maria que aceita tornar-se morada de Deus e colaborar com Ele para a salvação do mundo através da sua maternidade. Santo Agostinho comenta de modo excelente: “Maria foi maior em receber a fé em Cristo do que em conceber a carne de Cristo. Por isso, a consanguinidade materna de nada teria aproveitado a Maria, se ela não se tivesse sentido mais feliz em hospedar Cristo no coração do que no seio” (Sermão 215, 1).

Eis aqui a imagem e o modelo da Igreja discípula missionária, Igreja em saída. Aquela que recebeu o dom mais precioso de Deus, como primeiro gesto de resposta, pôs-se a caminho para servir e levar Jesus. Peçamos a Nossa Senhora que também nos ajude a transmitir a alegria de Cristo aos nossos familiares, aos nossos companheiros, aos nossos amigos, a todas as pessoas.

 

Magnificat, o canto da misericórdia (Lc 1, 46-55)

A alegria profunda da visitação e do encontro com Isabel prolonga-se e exprime-se, de modo singular e surpreendente, no canto que brota do coração e dos lábios de Maria, o Magnificat. É um dos textos mais belos e expressivos do Novo Testamento. O que leva Maria a entoar este hino maravilhoso?

Depois do colóquio com Isabel, meditando tudo à luz da fé, ela descobre que tudo o que nela acontece é obra da misericórdia de Deus ao serviço da grande história da salvação. Então, exulta de alegria e proclama a grandeza de Deus, da sua bondade e misericórdia que atua e se revela, não só na sua humilde pessoa, mas também na história do seu povo de Israel e na história do mundo, particularmente na sua predileção pelos últimos, os pobres, os pequenos, os humildes, os humilhados e oprimidos. No Magnificat, lê toda a história da salvação como história da misericórdia de Deus. Nele se reflete também a dimensão política e social: pela sua misericórdia, Deus faz justiça no mundo, derruba os poderosos e exalta os humildes.

Maria experimenta, canta e revela o amor fiel e misericordioso de Deus que se estende de geração em geração até hoje, ao nosso tempo. Portanto, também a nossa geração está incluída nesta promessa.

Como Maria e com ela, também nós podemos e devemos fazer a experiência da misericórdia de Deus deixando-nos salvar por Cristo; cantá-la descobrindo nos complexos caminhos e dramas do mundo a vitória da misericórdia sobre o mal; testemunhá-la vivendo as bem-aventuranças dos misericordiosos, a compaixão do bom samaritano, realizando as obras de misericórdia e promovendo a solidariedade, a justiça e a paz na sociedade.

O acontecimento da visitação de Maria a Isabel com o canto do Magnificat é uma imagem maravilhosa da Igreja do Magnificat, isto é, da misericórdia, do louvor e da alegria.

 

A presença nas bodas de Caná (Jo 2, 1-11): “Fazei o que Ele vos disser”

O Evangelho de S. João apresenta Maria no início do ministério público de Jesus nas bodas de Caná da Galileia, onde também se encontravam os discípulos. Aí Jesus realiza o seu primeiro milagre, transformando água em vinho para que não se estragasse aquela festa. Maria tem aqui um papel importante. É ela que vai notar a falta de vinho comunicando-a a Jesus: “Não têm mais vinho”. Manifesta assim a sua atenção terna e concreta e também a confiança incondicional no Filho.

Este primeiro milagre de Jesus é classificado pelo evangelista como o “primeiro sinal” que aponta para outra realidade maior. Com este sinal, Jesus transforma as bodas humanas na imagem das bodas da Nova Aliança de Deus com o seu povo. Para estas bodas, Jesus convida o seu povo, representado pelos seus discípulos e a sua mãe, e oferece o amor superabundante de Deus simbolizado no vinho novo e abundante para viver a alegria e a festa da comunhão e da misericórdia.

Assim, a verdadeira finalidade do episódio de Caná é a manifestação da infinita bondade de Deus e o despertar da fé, como se pode ver no final da narração: “Ele manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele”.

A partir daqui, podemos compreender a missão de Maria visível neste episódio: é a mãe atenta às dificuldades e necessidades dos homens, que apresenta ao Filho para que não falte a alegria do Evangelho, da ternura e da misericórdia. É simultaneamente porta-voz e intercessora do povo e porta-voz da vontade do Filho, em cujas mãos põe tudo e n’Ele confia.

Eis, a propósito, um belo comentário do então cardeal J. Ratzinger, numa homilia em Fátima: “No texto das bodas de Caná estão também as palavras de Maria aos serventes; depois do SIM (faça-se segundo a tua palavra), são talvez as suas palavras mais belas. No fundo, são só uma aplicação para nós do seu SIM: ‘Fazei o que Ele vos disser’. Para nós significa: conformai-vos à vontade de Deus. Escutai e estai prontos ao seu chamamento. Com estas palavras, convida os serventes e convida-nos a nós à fé. Convidou à fé e levou ao verdadeiro milagre. Fazei o que Ele vos disser, acreditai em Jesus Cristo, o Filho de Deus vivo”.

Maria aparece em Caná como mulher crente e colaboradora de Jesus na missão da Nova Aliança, desejosa de expandir a fé, que pede a cada um de nós a fé para aceder à alegria da comunhão com Deus e formar o novo povo que é a Igreja.

 

O caminho de peregrinação na fé

Não vamos pensar que a fé inicial de Maria foi sempre tranquila, sem conhecer dificuldades, perturbações ou provações. Maria teve de ir assimilando pouco a pouco o Evangelho anunciado por Jesus. O sim da anunciação foi o início de um longo itinerário para Deus, de uma verdadeira peregrinação na fé. Teve de renovar cada dia a fé profunda com que disse o seu primeiro sim, para o manter fiel durante toda a vida até à entrega do Filho na cruz.

Desde cedo, a sua fé passou por situações que a puseram à prova: o risco de perder o amor de José, seu noivo, por aceitar a maternidade divina, o nascimento do menino num pobre estábulo em Belém, a fuga para o Egito, a apresentação do menino no templo quando ouviu a desconcertante profecia de Simeão: “uma espada de dor atravessará o teu coração”, a perda de Jesus no templo. Maria vive a “noite da fé” que atinge o seu auge aos pés da cruz unida a Cristo sofredor no seu despojamento total. Mediante a fé, a mãe participa na morte do Filho com fidelidade, de modo bem diferente dos apóstolos, que fugiram.

Como é que Maria pôde viver este caminho ao lado do Filho com uma fé sólida, mesmo na obscuridade quando Deus parece ausente ou em silêncio, sem compreender tudo e sem perder a plena confiança em Deus? O evangelista S. Lucas revela-nos a atitude de fundo com que ela enfrentava estes acontecimentos: “Maria guardava todas estas coisas meditando-as no seu coração” (Lc 2, 19). Isto significa que Maria entrava em diálogo íntimo com a Palavra de Deus anunciada: recordava e relacionava no seu coração os acontecimentos e a Palavra, discernindo desta forma os desígnios de Deus. Assim adquire a compreensão que só a fé lhe pode garantir e permitir “esperar contra toda a esperança”.

 

A Mãe junto à Cruz (Jo 19, 25-27): “Eis o teu Filho”

Vamos agora até junto à cruz de Jesus e deixemos que seja o Papa Francisco a introduzir-nos no último dom do testamento de Jesus.

“Na cruz, quando Cristo suportava em sua carne o dramático encontro entre o pecado do mundo e a misericórdia divina, pode ver a seus pés a presença consoladora da Mãe e do amigo. Naquele momento crucial, antes de declarar consumada a obra que o Pai Lhe havia confiado, Jesus disse a Maria: “Mulher, eis o teu filho!”. E, logo a seguir, disse ao discípulo amado: “Eis a tua mãe!” (Jo 19, 26-27). Estas palavras de Jesus, no limiar da morte, não exprimem primariamente uma terna preocupação por sua Mãe; mas são, antes, uma fórmula de revelação que manifesta o mistério de uma missão salvífica especial. Jesus deixa-nos a sua Mãe como nossa Mãe. E só depois de fazer isto é que Jesus sente que “tudo está consumado” (Jo 19, 28). Ao pé da cruz, na hora suprema da nova criação, Cristo conduz-nos a Maria; conduz-nos a Ela, porque não quer que caminhemos sem uma mãe; e, nesta imagem materna, o povo lê todos os mistérios do Evangelho. Não é do agrado do Senhor que falte à sua Igreja o ícone feminino. Ela, que O gerou com tanta fé, também acompanha “o resto da sua descendência, isto é, os que observam os mandamentos de Deus e guardam o testemunho de Jesus” (Ap 12, 17)” (EG 285).

Junto à cruz, Maria oferece o Filho das suas entranhas, participa do amor misericordioso com que Ele Se oferece pela redenção de todos. Por este motivo, a sua maternidade divina, o amor de mãe de Jesus estende-se à Igreja e à humanidade. Ela recebe a missão de acolher o discípulo amado e todos quantos ele representa como filhos e filhas. O discípulo amado é, na verdade, o símbolo da comunidade cristã, de cada um de nós enquanto discípulos amados do Senhor.

“Eis o teu filho”, “eis a tua mãe” – é dito para cada um pessoalmente. Aqui “está plenamente indicado o motivo da dimensão mariana da vida dos discípulos de Cristo. A maternidade de Maria que se torna herança do homem é um dom: dom que o próprio Cristo faz a cada homem pessoalmente” (RM 45).

“Eis a tua mãe. E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua”. Não se trata só do acolhimento na sua casa. Segundo o texto grego original, significa que acolheu Maria como mãe no mais íntimo da sua vida, no seu coração, na profundidade do seu ser, entre os bens mais preciosos, em todo o seu espaço vital.

Maria faz parte da Igreja e da vida de fé do discípulo como um bem precioso e um valor vital; a Igreja e cada fiel podem reconhecer nela a mãe que lhes foi confiada e a quem eles foram confiados. Isto suscita em nós o amor a Maria e convida-nos a deixarmos que este amor alimente o nosso amor a Cristo e à Igreja.

 

No cenáculo do Pentecostes (At 1, 13-15): Maria no meio da comunidade

Os Evangelhos não referem qualquer aparição de Jesus Ressuscitado a sua mãe. Todavia, no livro dos Atos dos Apóstolos, Maria aparece já integrada na comunidade dos que creem no Ressuscitado.

Na véspera do Pentecostes, vemos os apóstolos reunidos no cenáculo “assíduos na oração com algumas mulheres e com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus” (At 1, 14), para invocarem o Espírito Santo. Também ela recebeu o Espírito do Pentecostes para realizar a sua missão própria na Igreja, mesmo sem receber a missão apostólica.

Desde o acontecimento do Pentecostes, ela está presente no meio da comunidade cristã enquanto mãe de Jesus, como “memória viva” e permanente de Jesus e elo de comunhão íntima com Ele; está presente no nascimento e crescimento da Igreja como casa de comunhão e no seu envio em missão, em saída para o mundo e todas as periferias geográficas e existenciais.

Juntamente com o Espírito Santo, Maria está sempre no meio do povo. Ela é a Mãe da Igreja evangelizadora. Pedimos-lhe que nos ajude com a sua oração materna para que a Igreja se torne uma casa para muitos, uma mãe para todos os povos e torne possível o nascimento de um mundo novo” (EG 284.288).

 

Elevada ao Céu, sinal de esperança para o povo peregrino

A fé da Igreja crê e afirma que a Virgem Maria, uma vez concluída a sua vida terrestre, foi elevada à glória de Deus, assumida na plenitude da vida eterna na totalidade do seu ser corpóreo-espiritual com toda a riqueza da sua humanidade, feminilidade e maternidade.

O mistério da assunção gloriosa de Maria ao Céu é mais para ser cantado do que explicado. É a festa do coroamento da existência da Mãe de Jesus. O nosso povo compreende esta verdade com a intuição da fé e do coração. Aquela que foi a primeira e única a receber Jesus, o Filho de Deus, no seu coração e no seu seio, que O seguiu fielmente toda a vida, é também a primeira dos redimidos a ser recebida pelo Filho ressuscitado, a participar da plenitude da vida eterna, que nós chamamos Céu, Paraíso, Casa do Pai. Assim, Maria indica-nos, de modo luminoso, a beleza da meta definitiva da nossa peregrinação no mundo.

 Além disso, continua a exercer a sua maternidade espiritual e universal de modo novo. Unida totalmente a Deus no Céu, ela não se afasta de nós, não vai para uma galáxia ou zona distante e desconhecida do nosso universo. O Céu de Deus não pertence à geografia cósmica (o céu das estrelas), mas à geografia do coração, isto é, do amor eterno e santo. Assim, Maria elevada ao Céu participa do amor universal de Deus e da sua presença conosco. Está muito próxima de nós, de cada um de nós, na comunhão dos santos. Tem um coração grande como o amor de mãe que partilha do amor universal de Deus. Pode estar perto, escutar, ajudar, interceder, acompanhar e advertir como mãe do bom conselho.

Como a mulher do Apocalipse (Ap 12, 1-10), não nos deixa sós, mas assiste-nos na constante luta com as forças destruidoras do mal, simbolizadas na figura do dragão sanguinário, no combate entre o bem e o mal, a vida e a morte, a graça de Deus e o pecado. De fato, depois de elevada aos Céus, não abandonou esta missão salutar. Com o seu amor de mãe, cuida dos irmãos do seu Filho que ainda peregrinam e se debatem entre perigos e angústias, até que sejam conduzidos à Pátria feliz. Por isso, a santíssima Virgem é invocada na Igreja com os títulos de advogada, auxiliadora, amparo e medianeira” (LG 62).

Nesta missão, a Mãe celeste pode visitar-nos com o seu amor materno, para trazer esperança e consolação ao povo peregrino no meio das lutas e tribulações da história.

 

Irmã Maria Helena Teixeira

Missionária do Santo Nome de Maria

Colunista JI

 

 

 

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