Marinha construirá navio quebra-gelo para auxiliar pesquisas na Antártida

Estação Comandante Ferraz, em 2013, um ano após o incêndio que a destruiu: reconstrução deve ser terminada neste mês (foto: Marinha do Brasil/Divulgação)

 

A Marinha do Brasil finaliza até o fim deste mês a reconstrução da Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), destruída em um incêndio em 2012. A montagem completa do prédio principal e a conclusão dos módulos isolados de telecomunicações e de meteorologia e ozônio, por exemplo, estão em fase final.

Em entrevista na cidade chilena de Punta Arenas, antes de um grupo de jornalistas embarcar para a base brasileira no Polo Sul, o contra-almirante Sergio Gago Guida, secretário da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (Secirm), destacou a importância da nova estação, que será inaugurada oficialmente no próximo verão. “Este ano, nós pretendemos terminar as obras de infraestrutura. A partir daí, começaremos o comissionamento, que não são apenas testes de funcionamento. Levaremos os equipamentos até o limite, pois é uma área que nós precisamos que esteja funcionando sempre em uma situação próxima às quais eles foram projetados. Não podemos ter falhas”, detalhou.

A nova infraestrutura de telecomunicações é um dos avanços da estação recém-construída. “Tínhamos um modelo voltado para o lazer, para a comunicação pessoal, mas não permitia que os pesquisadores passassem os resultados das suas pesquisas, fotos, vídeos, para suas universidades a fim de adiantar suas pesquisas. Com essa nova tecnologia, que foi uma parceria da Marinha com a empresa Oi e a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), nós conseguimos melhorar a tecnologia e levar essa vantagem para nossos cientistas”, disse o almirante.

Outro aspecto diz respeito à velocidade da torre de telecomunicações e o suporte para a telemedicina. A banda de telecomunicação anterior era muito limitada, agora, com 40 mega, vai permitir que um médico da estação possa atuar em uma emergência com o apoio do Hospital Naval Marcílio Dias, por exemplo. “Outro ponto positivo é a transmissão de dados da EACF para o Brasil, como sinais de alarme, que permitirão o monitoramento remoto da estação como um todo”.

Navio quebra-gelo

 

Perguntado pelo Correio sobre quais são as prioridade do Programa Antártico Brasileiro (Proantar) depois de consolidada a estação, Guida adiantou o esforço da Marinha para a aquisição de um navio quebra-gelo no valor de R$ 500 milhões. “O navio de apoio oceanográfico Almirante Ary Rongel já está numa situação precária e nós precisamos substituí-lo. Conseguimos apoio do Congresso e recursos do Executivo para fazer um navio quebra-gelo com capacidade de romper gelo de um ano com até 1m de espessura.” De acordo com a Marinha, o novo navio possibilitará a extensão do período dos cientistas na EACF.

Mas o que leva o Brasil, um dos 29 membros consultivos do Tratado da Antártica, a investir milhões de reais em uma fronteira tão distante? “Gosto de contar uma história que simboliza a necessidade de o país estar lá. Quando era assessor parlamentar do comandante da Marinha, tive a oportunidade de fazer uma viagem à Antártica com parlamentares, responsáveis por liberar verbas para o programa. Um desses congressistas, integrante da bancada ruralista, perguntou: ‘Comandante, para que o Brasil precisa estar aqui?’. Respondi: Se chove em sua fazenda, é graças à Antártica, que é um continente 1,6 vez o tamanho do Brasil, e é o grande regulador térmico do nosso planeta. As frentes frias no Brasil, por exemplo, nascem na Antártica.”

Cerca de 70% da água do planeta estão na Antártica. “Se nós pensarmos na água como commodity, que um dia será, nosso grande contendor será o continente antártico”, disse Guida, ao defender o avanço das pesquisas na região. “Temos que ter mais cientistas, uma estação moderna que apoie as pesquisas e que seja a casa brasileira na Antártica”.

 

 

José Carlos Vieira – Enviado Especial

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*O jornalista viajou a convite da Marinha do Brasil