Gov-03

O Encante do Boto

Dizem que ele usa chapéu para esconder o buraco da moleira...

Aquela noite de junho estava animada. A comunidade do Espírito Santo se reunia feliz com os festejos religiosos de São José. No cair da tarde teve reza, novena e depois começou o arraial com barraquinhas de comes e bebes,  pau de sebo e cantoria.

No interior, toda festa termina com arrasta pé no salão e muita dança até pela madrugada. Muita gente chegou da cidade e das comunidades vizinhas. As caras novas estavam por toda parte no pequeno vilarejo.

Lá pelas tantas subiu no porto um rapaz alto, moreno, vestido de branco com o chapéu quebrado na testa. Ele chegou e foi logo puxando as moças para a dança. Dançava com uma, pegava outra, mas foi com a Maria das Dores que ele se engraçou. Atrevido, enxerido e faceiro, o misterioso rapaz parecia enfeitiçado pela moça. Ela já tinha sido casada, mas continuava muito bonita.

Todos observavam a dança do casal noite a dentro. Lá pelas tantas, no melhor da festa, o rapaz de branco deixou Das Dores e saiu depressa do barracão da festa. Quem estava na frente do barracão viu quando ele desceu no rumo do porto, caiu n’água e sumiu.

Foi um Deus nos acuda. A história do boto foi contada por dona Camé dos Reis, que confirmou que aquele não era um homem, mas um boto. Todos ficaram assombrados, principalmente a moça.

Dona Camé, que já é falecida, conhecia muitas histórias e contava que no interior quando se desconfia que é boto, basta tirar o chapéu dele que dá pra ver o furo que o animal tem na cabeça. Dizem que ele usa chapéu para esconder o buraco da moleira.

 

(Livro: OS FANTÁSTICOS CABOCLOS, CONTADORES DE HISTÓRIA/Peta Cid/ Arte: Ananda Cid)

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