Gov-03

O homem de terno cinza

Auxiliadora fechou tudo e estava apagando as luzes quando viu um senhor de meia idade subindo as escadas...

Desde criança, Auxiliadora dizia para a mãe que queria estudar naquela escola bonita, uma das mais conceituadas da cidade. No ginásio, a mãe conseguiu a vaga e lá estava a menina, de saia bem passada e blusa lavada no anil. Estudava pela manhã, caprichava nas notas e fazia do colégio uma extensão de casa.

Ao concluir os estudos, recebeu o convite para trabalhar como  auxiliar na secretaria. Foi uma realização depois de anos de dedicação. Conhecia cada espaço da escola.

Uma noite, no final de expediente, restavam poucos alunos em uma das salas no andar superior. No setor administrativo não havia mais ninguém. Somente ela que tinha a chave para fechar as salas e o vigia que ficava no portão. Bateu o sino no horário de saída, 22h30. Os  alunos deixaram a escola e o professor também se despediu com um até amanhã.

Auxiliadora fechou tudo e estava apagando as luzes quando viu um senhor de meia idade subindo as escadas. Era magro, cabelos grisalhos, estava de terno cinza e levava uma pasta. Ela estava distante da escada, mas mesmo assim viu o homem e quis saber o que ele estava fazendo ali. disse em voz alta que a escola estava fechada, mas o homem a ignorou. Ela se apressou atrás dele, voltou a acender as luzes da escada e foi ao andar superior. Chegando lá se deparou com o homem no fim do corredor, perto de uma  janela onde se via a rua. Apenas  uma  lâmpada foi acesa, razão pela qual a iluminação era precária no local.

O homem permanecia imóvel, não atendia ao chamado e a moça, então, decidiu caminhar até ele.  Por um segundo, Auxiliadora desviou a atenção para a sala da biblioteca e quando retomou o olhar para o corredor, o homem tinha desaparecido.

Ela se desesperou, queria gritar, chamar o vigia, mas a voz não saía. O homem simplesmente sumiu. A jovem sentiu como se um buraco abrisse na sua cabeça, escureceu tudo e o pavor a consumiu.

Conseguiu respirar e gritar chamando o vigia, que subiu correndo e a amparou no topo da escada. Respirou fundo e só sabia dizer que um homem de terno sumiu na sua frente.

O vigia a levou para fora da escola, ela estava trêmula e com muito medo. Na rua havia um casal namorando numa calçada e isso a acalmou pelo fato de não estar sozinha naquele trecho, enquanto o vigia teria que vasculhar o local.  depois de uns dez minutos, ele retornou dizendo que não encontrou nada. Ficaram algum tempo parados, mas logo entraram juntos para fechar o restante das salas. A secretária se acalmou, mas continuou sentindo a presença de alguém no ambiente. Se arrepiou toda, mas respirou fundo e entrou.

Tudo parecia calmo na escola, não fosse um barulho vindo da secretaria. Naquele tempo não havia computador e os documentos eram escritos em máquina de datilografia. Quem trabalhou nessa época sabe que as teclas emitiam um som característico. E era esse som vindo da sala. Ambos se encheram de coragem e abriram a porta. O som das teclas parou imediatamente, ninguém estava na sala. Seja lá o que fosse, tinha ido embora.

Auxiliadora e o vigia fecharam tudo e saíram da escola. Ela ainda ficou um tempo esperando o esposo que todas as noites ia buscá-la. Aquela noite marcou a sua vida, ela não conseguiu dormir, ficou desnorteada. Fechava os olhos e via aquela imagem sombria. Por muitos dias a secretária ficou com aquela visão na mente e garante que a visagem do homem de terno cinza foi a pior experiência que teve na sua vida.

 

 

 

(Livro: OS FANTÁSTICOS CABOCLOS, CONTADORES DE HISTÓRIA/Peta Cid/ Arte: Ananda Cid)

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