Gov-03

– O Navio Fantasma do Uaicurapá

Famosa por suas belíssimas praias de areias branquinhas, a região do Rio Uaicupará esconde muitos mistérios. Lá, volta e meia os moradores enxergam o cavalo-marinho gigante, o sino de ouro, o bode do mirundé e o navio fantasma. Foi o bendito navio fantasma que perseguiu o agricultor Ademir Souza dos Santos, 60, morador da comunidade São Pedro do Paraíso do Uaicurapá.  Numa tarde de domingo ele, a esposa Dona Maria de Nazaré e uma filha saíram de rabetinha (barco pequeno) para visitar um amigo. Na hora de retornar, um temporal surpreendeu a família que ficou impedida de viajar com a luz do dia. Os temporais são tenebrosos no Uaicurapá e não vale à pena arriscar.

Já era noite, umas 21h quando o tempo melhorou e a família iniciou a viagem de volta. A noite esfriou de bater os queixos, mas era o jeito enfrentar o Uaicurapá. Perto da comunidade Monte Horebe, os viajantes viram um fogo no beiradão que parecia lanterna, como se alguém estivesse “porongando” (procurando peixe). Mas era uma luz intrigante, diferente e eles sabiam que depois de um temporal “daqueles” quase ninguém arriscava pescar. Dona Nazaré, com medo, pediu que o marido puxasse ao máximo a velocidade do rabetinha. Podia ser a cobra-grande e ela não duvidava.

E quanto mais o rabeta apressava, mais a luz crescia no rio e chegava mais perto. A essas alturas não havia barco navegando porque era domingo e o pessoal que faz recreio estava na cidade.

Ademir e sua família ficaram assustados quando a luz chegou  mais perto e perceberam   que era um navio que se aproximava rápido, todo iluminado.

O nervoso foi tomando conta porque navio não é visto por aqueles rios, só no rio Amazonas. Marido e mulher então acreditaram se tratar de algo encantado.

Eles já tinham ouvido relatos dos antigos sobre um navio encantado e agora estavam de cara com ele. A embarcação não fazia maresia, mas os holofotes e as lâmpadas estavam acesos. Era bonito e “alumiadinho”. Não se via ninguém, nem vozes, nada, nada. Quanto mais o rabeta navegava, mais ele jogava o holofote pra cima do pequeno barco clareando tudinho.

A perseguição durou até a família conseguir chegar no porto de casa. Desceram do barquinho quase correndo, entraram na casa, trancaram tudo e apagaram as porongas. Em silêncio, o ribeirinho ficou brechando pelas frestas da parede de madeira. Ele viu quando o navio encantado parou e fez a volta. Na Boca do Igarapé do Traíra os motores desligaram, as luzes apagaram e ele desapareceu.

Ademir mal conseguiu pregar o olho, ficou vigiando a casa e nunca mais navegou à noite no rio Uaicurapá.

Na região há muitos relatos de moradores antigos que viram o navio fantasma.

O Arquimino foi outro que viu. Ele e mais vinte comunitários que estavam em uma bajara. Todos viram o navio indo na direção da Ilha do Peixe Marinho.  Nessa aparição, impressionou a quantidade de luzes e muitos marinheiros equipados à bordo do navio. A embarcação navegou mais de cem metros e logo em seguida desapareceu.

O filho da comunidade do Maranhão  Cláudio Oliveira, já falecido, relatava a mesma história do seu pai que também viu o navio.

O versador parintinense Adolfo Lourido, nascido na região do Uaicurapá, falava que o navio fantasma era o Paquetá Bahia, da época da Cabanagem, que segundo a história naufragou naquela região.

 

História: Josene Araújo/Edição: Peta Cid

Arte: Ananda Cid

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