O sapato pintado de azul

Mais um "Causo"de Concy Rodriguez.

Era Junho de 1983, eu fui convidada para “brincar no Boi Bumba Caprichoso, no primeiro dia do Festival, no tablado, eu só precisava  escolher a roupa (antes era assim). Então,  escolhi um maiô azul cheio de lantejoulas e plumas, bem minha cara.

Mas faltava o sapato alto, eu não usava saltos, foi ai que emprestei de uma colega, ele era preto, fechado, número 36/37, eu usava 37/38🤭

Um detalhe, eu teria que pintá-lo de azul.

Peguei tinta no QG, levei para casa e os pintei. Isso já era perto das 16h, às 19h deveria estar no local onde nos vestiríamos.

As 18:30h eu já estava lá me arrumando, fizeram minha maquiagem bem pesada para destacar de longe, pedi. Depois passei um pouco de óleo no corpo (pra realçar o bronzeado, que naquela época era de lei) e então, calcei os sapatos.

Fomos os primeiros a entrar, enquanto a marujada entrava e o povo levantava e aplaudia eu já gemia. Mal sabia que meu martírio estava só no início. Com mais ou menos uns 30 minutos de apresentação, começou a me cansar, aquela tinta fresca colou no meu pé, e pra completar me deu uma enorme câimbra nas pernas e pés.  E agora meu Deus? Simulo um desmaio, saio de fininho? Mais como, se não conseguia dar mais nenhum passo??

Eu já começava a chorar de verdade. Foi então que uma jovem que estava perto de mim, percebeu que eu estava em lágrimas e resolveu chamar um jovem da organização, que ao chegar perto de mim, eu apenas lhe disse com os dentes travados: Me tira daqui por favor.

Então ele me levou dali, era apenas um anjo do céu naquele momento. Me levou quase carregada, saí da arena toda torta. Ao sair, fui logo tirando os sapatos, meus pés não atendiam aos meus comandos, eu me contorcia com as câimbras.

Enfim, assim começou minha saga bovina, com estreia frustrante no Touro Negro da América.

 

Concy Rodriguez, colunista JI

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