O VENDEDOR DE TUCUMÃ

Se houvesse uma eleição para escolher o fruto mais popular do Amazônas, O TUCUMÃ receberia, sem sombra de dúvida, a grande maioria dos votos.

Sempre saboreei o fruto dessa Palmeira Amazônica e nem de longe imaginei estar ingerindo ÔMEGA 3, fibra, potássio, magnésio, carboidrato, vitamina A, vitamina B1 e vitamina C. Esse fruto alaranjado, segundo recente pesquisa, também auxilia no crescimento da unha e capilar; controla níveis de açúcar no sangue; baixa o colesterol; previne o envelhecimento precoce e fortalece o sistema imunológico.A verdade é que, o nosso regionalíssimo TUCUMÃ, virou iguaria de primeira qualidade, indispensável na mesa de milhões de brasileiros. Então, agora sim, está explicado de onde vem a energia da cabocada do Boi de Lindolfo Monteverde, da baixa do meu amado São José. Eu, particularmente, gosto de Tucumã de qualquer jeito; com farinha, sem farinha, no pão, na tapioquinha, mas confesso: sou um bom comedor e um péssimo descascador. Sozinho em casa, simplifico tudo, dispenso a faca e descasco com os dentes. A procura é tanta que a vigilância sanitaria, em inspeções rotineiras, detectou que elementos químicos estariam sendo usados para acelerar o amadurecimento do fruto. Em dezembro de 2014, em Manaus, foi criada a Lei Municipal n°1.945, proibindo o uso de Carbureto de Cálcio na maturação do precioso e saboroso TUCUMÃ. Bem pessoal, tenho tantas coisas para falar sobre esse maravilhoso fruto que, se eu não parar por aqui, a introdução ficará maior que a história. Então, vamos lá?

*****MÁRIO TAPAYUNA era um profissional na arte de apanhar e vender TUCUMÃ; conhecia o CAMPO GRANDE, o Aninga, o Paranapanema, o Macurani e a localização de todas as árvores que produziam os melhores TUCUMÃS da Ilha. De porta em porta, com um saco de pano na cabeça, TAPAYUNA saía oferecendo e usava técnicas infalíveis de venda; parava, descascava, tirava pequenas fatias e pela reação dos clientes, no momento da “provada”, sabia do sucesso ou insucesso da apresentação do produto. Mário era irmão do compositor e músico Silvio Camaleão; do Marujeiro CARLINHO e filho da saudosa dona MARINA, uma senhora super agradável que trabalhou muitos anos na lavanderia do Hospital Padre Colombo. TAPAYUNA sabia o horário certinho que o papai chegava da SUCAM e a mamãe saía do Brandão de Amorim; compravam sempre porque sabiam que era grande, carnudo e de excelente qualidade. Um dia percebi que minha mãe queria comprar mas estava sem dinheiro;me adiantei e disse: ESTÁ CARO!!! E falei pra ele ouvir: Hoje não vamos comprar, eu vou buscar no Campo Grande e vou trazer um saco cheinho, duvidam?. Eu estava acostumado subir nos mamoeiros da dona IDA; na pitomaneira da dona SABÁ; no abacateiro da dona Creuza e pegar ovos de galinha debaixo do assoalho do seu JOSINO ( com o consentimento dele, é claro!!). Então, evidentemente, conseguiria apanhar Tucumã no CAMPO GRANDE e cumprir a missão prometida. Quando o relógio marcou 10hs, peguei uma bicicleta monareta; uma FOICE de cortar juta; uma saca de sarrapilha e saí de calção, camiseta, sandália CARIRI e muita vontade de provar que eu conseguiria trazer os Tucumãs para nossa casa. Cheguei debaixo do Tucumãzeiro, escalei com os olhos aqueles quase 20 metros de altura e percebi que precisaria de uma vara bem comprida para amarrar a foice. Juntei e amarrei com cipó muitos pedaços de madeiras mas eu era tào franzino, que não consegui levantar até o cacho. Fiz novas tentativas, juntei varas mais finas, rasguei a saca de sarrapilha em tiras para amarrar melhor mas novamente o vento atrapalhou e a vara não estabilizou . O tempo foi passando, a fome foi apertando e cheguei a conclusão que a profissão do Mário Tapayuna não era tão simples assim; fui reprovado no ofício de extrativista. Antes de desistir, arrisquei algumas pedradas e por último, resolvi catar debaixo de outras árvores para não voltar com os mãos vazias. Cheguei em casa às 14hs, cansado, com sede, morrendo de fome, andando com dificuldade, com os pés cheios de espinhos e duas dúzias de Tucumãs amarrados na camiseta. Foi uma aventura mal sucedida e uma lição de vida inesquecível!!

 

Inaldo Medeiros

Colaborador JI