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Pelé completa 80 anos sem perder a majestade

O reconhecimento ao mandato infinito do Rei que não abdica partiu de vários príncipes melhores do mundo.

(Crédito: Kleber Sales/CB/D.A Press)

Com as devidas adaptações e licenças poéticas à letra da música Mulheres, interpretada por Martinho da Vila, a exigente dona bola já teve parceiros eleitos melhores do mundo de todas as cores, de várias idades, de muitos amores. Com uns até certo tempo ficou. Pra outros, apenas um pouco se deu. Madame bola já teve craques do tipo atrevido, do tipo acanhado, do tipo vivido. Gênios cabeças e desequilibrados. Astros confusos, de guerra e de paz. Mas nenhum deles fez a senhorita bola tão feliz como Edson Arantes do Nascimento, o Rei Pelé, faz há 80 anos.

Nascido em 23 de setembro de 1940, o mineiro de Três Corações estreou como jogador profissional no feriado do Dia da Independência, em 1956, contra o Corinthians de Santo André (SP). Coincidentemente, naquele ano, a revista France Football inaugurava o prêmio mais tradicional. O inglês Stanley Matthews do Blackpool conquistava o Ballon d’Or (Bola de Ouro) — restrito a jogadores em atividade na Europa até 1994. Mais tarde, em 1991, surgiu o Fifa Player of The Year da Fifa, rebatizado Fifa The Best.

Levantamento do Correio mostra que, da estreia de Pelé no futebol até hoje, 45 jogadores diferentes conquistaram a Bola de Ouro e/ou a estatueta da Fifa. Outros dois ganharam o prêmio em caráter especial: Maradona, que atuou na Europa por Barcelona, Napoli e Sevilla; e Pelé, fiel ao Santos e depois ao Cosmos, nos EUA.

Mal sabiam os criadores das diferentes e badaladas distinções que Edson Arantes do Nascimento nasceu para ser hors concours. Enquanto os vencedores em série se achavam reis nos limites geográficos da Europa, Pelé deixava o mundo aos pés dele com as conquistas de três Copas (1958, 1962 e 1970), duas Copas Intercontinentais, duas Libertadores e 1.283 gols. Em 19 de novembro de 1969, a Terra parou para testemunhar o milésimo gol da majestade.

O reconhecimento ao mandato infinito do Rei que não abdica partiu de vários príncipes melhores do mundo. Vencedor da Bola de Ouro, em 1966, ao levar a ao brindar a Inglaterra com o título inédito da Copa do Mundo, o ídolo do Manchester United, Bobby Charlton, 83, definiu o Rei. “Às vezes, acho que o futebol foi inventado para esse jogador mágico”.

Coroado Bola de Ouro em 1971, 1973 e 1974, Johan Cruyff (1947-2016) também assumiu o papel de súdito. “Pelé foi o único jogador de futebol a superar os limites da lógica”. Antes de Messi e de Maradona, o argentino naturalizado espanhol Di Stéfano (1926-2014) era colocado no patamar do melhor de todos os tempos. Mas até o craque laureado em 1957 e 1959 desceu do pedestal. “O melhor de todos os tempos? Pelé. Messi e Cristiano Ronaldo são ótimos jogadores com qualidades específicas, mas Pelé era melhor”.

Eleito cinco vezes melhor do mundo, Cristiano Ronaldo endossa na língua de Camões. “Pelé é o maior jogador na história do futebol, e só haverá um Pelé no mundo”.

O Rei não se distingue dos melhores do mundo só na bola. É simpático com a maior ameaça. “Messi é incansável, maravilhoso e brilhante. É lindo te ver jogar. Bem-vindo ao clube dos 700 gols. Obrigado pelo espetáculo”, postou Pelé, em 2 de julho, nas redes sociais. Aos 30 anos, o Rei tinha três Copas e mais de mil gols. Messi, 33 não tem Mundial, mas pode alcançar o milésimo gol.

Pelé foi além do futebol. Desfilou no mundo da política, economia, cultura… Cumpriu a profecia de Andy Warhol (1928/1987), papa do pop art. “No futuro, todo mundo será famoso por 15 minutos. Todo mundo, vírgula. Pelé será famoso por 15 séculos”.

O negro pobre de Três Corações (MG) tornou-se Cavaleiro Honorário do Império Britânico. Recebeu a distinção luxuosa das mãos da Rainha Elizabeth II. Ganhou status de Cidadão do Mundo pela Organização das Nações Unidas (ONU). Foi celebrado por presidentes do EUA, na Casa Branca, e pelo papa, no Vaticano.

Lutou no estilo Pelé de ser contra o racismo, como no discurso do Rei documentado na autobiografia publicada no Brasil, em 2006, pela editora Sextante. “A escravidão não está muito distante no passado — sou apenas da terceira geração que nasceu livre na minha família. Gritem comigo: ‘Digam não ao racismo’”, pediu o Rei, em 2010, no estádio Newlands, quando a anfitriã África do Sul aguardava pelo início da Copa do Mundo.

Aos que duvidam, hoje, da eficiência e da arte de Pelé no futebol pós-moderno, ele mesmo deu a resposta quando celebrou 70 anos. “Michelangelo pintaria bem hoje? Mozart tocaria bem? Pelé jogaria bem? Claro. As condições são melhores”. Neste 23 de novembro, resta-nos citar o último trecho do Soneto de Fidelidade, de Vinícius de Moraes, em saudação ao rei: “Que seja infinito enquanto dure”.

“Às vezes, acho que o futebol foi inventado para esse jogador mágico”

Bobby Charlton, Bola de Ouro em 1966

“Pelé foi o único jogador de futebol a superar os limites
da lógica”

Johan Cruyff (1947-2016), Bola de Ouro em 1971, 1973 e 1974

“Chegando aos 80 com saúde. Quando for para o céu, espero que Deus me receba da mesma maneira que todos me recebem, hoje, pelo nosso querido futebol”

Edson Arantes do Nascimeento, Pelé

 

 

Marcos Paulo Lima/https://www.correiobraziliense.com.br/

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