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Peta Cid estreia coluna no site JI

A conceituada jornalista Peta Cid estreou uma coluna no nosso site Ji e no jornal impresso para levar a todos os conteúdos do Livro recém lançado OS FANTÁSTICOS CABOCLOS, CONTADORES DE HISTÓRIAS.

Peta Cid é formada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Amazonas, exerce o cargo efetivo de Analista em Comunicação na Prefeitura  de Parintins, e já atuou como Repórter e Editora no Sistema Alvorada de Comunicação, Repórter e Editora da Rádio Clube de Parintins, Repórter e Correspondente do Jornal A Crítica, Repórter em Lins Assessoria, Colaboradora em O JORNAL DA ILHA, Correspondente em Jornal o estado do Amazonas, Correspondente em Jornal Amazonas Em tempo, Editora em Jornal Parintins em Tempo, Coordenadora de Comunicação da Prefeitura de Parintins, Assessora de Imprensa da Câmara Municipal de Parintins, Assessora de Imprensa do Boi Caprichoso, e Colaboradora em Blog Cenas da Ilha.

 

Na cidade de Parintins, ilha pactuada com a floresta e banhada  pelo rio Amazonas, espalhar cadeiras nas calçadas sempre foi um costume das vizinhanças. Parentes e amigos reuniam na frente das casas nos  fins de tarde calorentos, os portões testemunhavam bisbilhotagens da  vida “dos outros”, mexericos, línguas afiadas, contos de visagens e seres  enigmáticos.

Quando os primeiros sinais do crepúsculo traziam o ar misterioso da noite, as poucas luzes que iluminavam as ruas moldavam  o cenário de suspense, medo e sombras. A cada relato os olhos arregalavam, as mãos gelavam, curumins quietavam e arrepiavam.  O silêncio só rompia com as histórias fantásticas dos caboclos.

Este livro, contemplado pela Lei Aldir Blanc, revive memórias em  forma de contos e ilustrações. Narra aparições e causos que povoavam a  mente de pescadores, ribeirinhos, gente simples, contadores de histórias  que juravam ter visto a cobra grande, o boto que virava homem, a mulher de branco ou a velha que se “ingerava” em porca.

Recortes do imaginário sobrenatural lembrados com exatidão pelo  povo do lugar.

Histórias que na era tecnológica inspiram a apoteose encenada no Festival Folclórico de Parintins, seus bichos gigantes e criaturas magníficas. O que na ópera dos sonhos é o lendário rico da Amazônia, para os caboclos é vida real, é testemunho da verdade da floresta.   Baseada nos dizeres populares, contos e ficção, a narrativa conduz  o leitor a um mundo extraordinário que se traduz num verdadeiro deleite da essência do que é ser um fantástico caboclo contador de histórias.

 

 1 –   A criança que chorou na igreja

Era uma tarde quente de setembro, na década de 50. O vento uivava no pôr-do-sol em frente à Igreja da Matriz, hoje Sagrado Coração de Jesus. Na rua ao lado, a Sá Peixoto, Veronilda Maria de Souza, a Vevé, hoje com 83 anos, costumava sentar na frente da casa da tia Cacilda Cid. A casa era grande, a calçada alta. Nesse dia, conversava animada com a mãe Leonilda, a tia Lioca e a prima Marinete Souza. Conversa vai, conversa vem, Vevé  convidou a prima para dar uma volta na praça, que não era pavimentada, mas estava iluminada em saudação às Santas Missões. As duas seguiram até a frente da igreja para apreciar o rio e sentir o ar fresco da brisa. Não imaginavam a história bizarra que iriam testemunhar.

De repente, ouviram um barulho vindo da igreja. Alguém batia  forte na porta principal e uma criança chorava sem parar. Ficaram assustadas e acreditavam que pelo jeito de chorar, a criança deveria ter de três e quatro anos de idade. Como ela ficou trancada na igreja?  Indagaram. Mais que depressa foram na casa da dona Zezé Pereira que tinha a chave da sacristia. Ela morava onde hoje é a casa das Irmãs da Caridade e rápido atendeu ao chamado. O choro continuava e as três entraram na igreja para procurar a criança. Vasculharam por baixo dos bancos, atrás das portas, em todos os cantos e nada encontraram.

A noite já afugentava os raios do sol quando o silêncio tomou conta da igreja. O choro parou e foi então que perceberam que não havia ninguém. Onde estava a criança? Seria uma alma precisando de oração?

Estavam no centro da igreja quando ouviram a porta principal  bater com força. Foi um som bem alto, as três  olharam na direção do barulho e viram um vulto passando por trás de uma coluna.

A essa altura o arrepio já dilacerava e o coração queria saltar pela boca. O pavor tomou conta das três, a porta de saída parecia muito longe, as pernas não regulavam direito. Mesmo assim conseguiram correr, saíram da igreja e trancaram a porta da sacristia.

Vevé  Souza conta que por muito tempo deixou de frequentar a praça naquele horário. Ela lembra cada detalhe e diz que até hoje se arrepia toda ao recordar o dia em que ouviu a visagem de criança que chorava na igreja de porta fechada.

 

(Livro: OS FANTÁSTICOS CABOCLOS, CONTADORES DE HISTÓRIA/Peta Cid/ Arte: Ananda Cid/Créditos de histórias de Elinaldo Tavares e Josene Araujo)

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