Campanha Caburi

Quando os olhos viram rios de saudades!

Passando pelas redes sociais, é inevitável ver as histórias, as declarações de amor de filhos, netos, bisnetos de fundadores dos bumbás de Parintins.

 

A jornalista Peta Cid (foto), sócia fundadora do Boi Caprichoso, ex Conselheira de Arte, fundadora do Movimento Marujada e filha de Dona Edinelza Cid, artesã, costureira, bordadeira não escondeu o sentimento de saudade da mãe e dos momentos que viveu na infância e na juventude. Tudo pelo Caprichoso. Ah, ela também é herdeira de Roque Cid.

Bisneta de Lindolfo Monteverde, jornalista, mestra em ciências da comunicação, produtora cultural, presidente da Associação Regional Lindolfo Monte Verde e membro da Comissão de Arte do Boi Garantido, Suzan Monte Verde , deixou aflorar todo o sentimento de gratidão ao avô dizendo: como pode um brinquedo de menino virar paixão.

É a história de geração, a geração.

 

Texto publicado pela Jornalista Peta Cid  

     

Tá chegando a hora.. e as lembranças aflorando das loucuras que já fizemos por boi. Quem nunca né ???? 
Eu nasci no boi e fui criada praticamente em um QG de boi que era a minha casa.. era lá que a mamãe e outros artistas faziam as fantasias das rainhas…. Dormi muitas noites em um colchão que ficava embaixo do Caprichoso, na sala da casa da minha avó Cacilda, que por sinal era a única contrária da família. Lá morava o padrinho do boi, Tio Acinelcio Vieira e o boi ficava guardado lá na sala. 

Minha avó ficava brava, ela era fanática e fuxicava tudo que a gente ia fazer pro pessoal dos Faria kkkkkkk Era espiã do contrário kkkkkkkk Mamãe ficava com ódio e tínhamos que fazer as coisas escondidas. 
Mas loucura mesmo foi quando fui estudar em Manaus. Eu fazia tudo para tirar notas boas nas primeiras provas.. assim eu passava raspando, mas não precisava fazer a última prova porque eram marcadas sempre para os dias do boi.. Logo eu que amava passar com nota alta no segundo grau.. kkkk abandonava tudo na faculdade pra vir embora… tudo por causa do boi.

Que tempo fantástico foi esse.. não só pra mim… mas pra muita gente. 
No tempo da minha cunhantãzisse na Sá Peixoto, as alegorias eram arrumados na rua com muitas samambaias e a gente ia pra estrada tirar cana-flecha para enfeitar as fantasias dos índios. Em casa pra todo lado tinha pó brilhante, unhas, contas, lágrimas de Nossa Senhora, penas de galinhas (coitadinhas)e até de garças que vinham do interior. O boi era pequeno e não se tinha noção da gravidade que se cometia com os animais silvestres que por sinal até desfilavam nas mãos das itens.. cobras , onças .

Lembro da noite que minha mãe Edenlza levou todos os filhos pra casa das irmãs da caridade.. Ficamos lá escondidos com medo.. Foi uma vitória do Caprichoso no Parque das Castanholeiras que gerou revolta dos contrários que saíram quebrando o que viam pela frente.. 
Nossa casa ficava lotada…tanta gente ia lá .. Manoel Ribeiro, Municio Monassa, Xuxa, Théo, Cirene, Douglas, Carmona, Ewaldo Cunha.. Marita, Bosco, Coalhada… só pra lembrar alguns. Um QG funcionava na nossa casa e outro na casa da dona Odinéa e de outro que amava o boi, o seo João Andrade…. era lá na casa deles a parte mais importante.. a montagem do roteiro da apresentação… 
Esse boi tem muita história minha gente … eu passaria a tarde toda escrevendo… é porque de repente bateu uma saudade vendo todo esse movimento aqui do lado de casa, onde estão as alegorias … Passa um filme com muitas estrelas… muitas já repousando no céu azulado.. 
E eu aqui … molhando o rosto de vez em quando sentindo o gosto salgado da saudade.

 

Texto publicado por Suzan Monteverde

Para Lindolfo

Um dia no rádio em entrevista me perguntaram: se Lindolfo estivesse vivo o que falaria para ele?

Imediatamente meus olhos viraram rios e desaguaram. Não conseguia falar nada só chorar. Em meio há todo um tempo de rádio, tive que com a voz trêmula e quase não saindo que dizer somente gratidão. Agradecer por tudo que fizestes. E a cada dia fico pensando naquele dia que a emoção não deixou eu dizer também orgulhosa e admirada.

Esse ano em particular! A cada entrada de galpão eu chorava também. Como pode um brinquedo de um menino virar paixão?

No dia que vi mestre Jair Mendes sentado no galpão esculpindo a alegoria. Meu coração acelerou. E que coisas bonitas e gratificantes falou de você.

Ao ler os textos da revista de 2019 chorei mais uma vez e tome emoção em ensaios, repasses de roteiros e escolha de música. E muita emoção em cada falar com item, ao qual o amor por aquilo que você criou se sustenta como foco de vida.

Ficava pensando eu. Sou muito orgulhosa por ter em mim um sangue de um imortal da cultura popular. Orgulhosa em representar essa família amazônica de resistência. Por que se até hoje te reconhecem como fundador e criador houve todo um processo de lutas 💪de gerações para que não ficasse no ostracismo como sabemos de outras histórias.

Faço parte da quarta geração do poeta, cancioneiro, mestre Lindolfo Monte Verde. Viu bisvovô? Tantos adjetivos importantes.

Uma mulher a frente da Associação de Família, uma jovem de 28 anos, ao qual sempre tive em mente o processo de que estudar seria a melhor forma de perpétua o seu legado.

Hoje como primeira da família a fazer parte do seleto grupo de escalão da comissão de arte acredito que consegui dar conta do recado.

Não era somente sua bisneta. Era uma professora, pesquisadora, especialista, pres da associação de família, uma ex batuqueira, ex membro da cênica do Garantido, torcedora, cunhatãe da baixa, filha de um amor fecundado no São José, participante de tantas festividades do terreiro, da rua e agora espetáculo. Era técnica, profissionalismo e emoção.

Não somente vivi/vivo o boi, mas nasci nele, com toda sua responsabilidade de conhecer a história, saudar a memória e pontuar um novo momento conceitual de apresentação. E que experiência maravilhosa esses setes meses. Da escolha do tema, das toadas, das discussões conceituais, fundamentação, desenhos, concepção de alegoria, figurino e adereços.

Única mulher sentada naquela mesa. Uma mulher parintinense, nascida e criada onde tudo começou…
Não era mero detalhe, não era assistencialismo ou figuração. Era força, voz, voto e vez.

Cara! Bisvovô. Que organização para te deixar orgulhoso esse ano. Esforcei ao máximo para aprender e sugar o que podia. Da bitola e ferros, dos faisões silver a roldana. Um universo que rodeia todo resultado do espetáculo da sua criatura, o boi de pano e de coração na testa.

Agradeço demais meus colegas de trabalho do Garantido de todos os setores e a generocidade de poder me ensinar. Agradeço a confiança e a oportunidade.

Faltam 3 dias para o festival. E eu estou numa ansiedade. Foi muita entrega bisvovô. Olha onde fui parar… 😳 Será tudo para você, por nossa família.

Citando o Wilson Nogueira que era curumim quando frequentava escondido os ensaios no seu quintal: “O torcedor, o brincante e o artista do Garantindo são e serão sempre pessoas felizes, assim como Lindolfo é o ser mais feliz do mundo, já que ele vive no coração de cada um dos que vestem a camisa encarnada da luta, da alegria e da liberdade”.

Felizes por você e por tudo que nos deixou.

#DeGeraçãoparageração
Nós, o povo de alma vermelha ❤✔
Garantido 2019.

 

Por Josene Araujo/JI-Festival 2019

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