Quebrando os tabus sobre o exame de próstata

Entrevista com  o médico urologista Alberto  Figueiredo,

A Coluna  “Olho Clínico” traz  nesta  edição, uma entrevista com  o médico urologista Alberto  Figueiredo,  que  abordará um assunto importante  para o público masculino, o câncer de próstata e os tabus que o acompanham.

Mas antes de começarmos a conversar  sobre o nosso tema central  que é  a Campanha “Novembro  Azul”, gostaria que  o senhor contasse um pouco da sua  trajetória  na medicina.

Dr. Alberto – Bom dia  Concy, eu sou médico  urologista,  formado pela Universidade  Federal  do Pará,  desde 2001, fiz residência médica  em cirurgia  geral no Hospital do Servidor em São  Paulo,  depois fiz  residência em urologia também em São  Paulo,  no período de 2003 a 2008. Logo após,  ainda em 2008 retornei  a Parintins,  onde  estou atuando a pouco mais  de dez anos como urologista  e cirurgião.

 

Concy Rodríguez/OC- Vamos iniciar nossa entrevista falando da grande  vilã da saúde  do homem  maduro. Afinal o que é  próstata, qual a sua função?

Dr.Alberto – A próstata e um órgão  que está  alojado no aparelho  reprodutor masculino. É  uma glândula que fica em baixo da bexiga,  atravessada pela uretra e a sua  função é  produzir parte do esperma. O componente do esperma que a próstata  produz vai estar  agindo na  nutrição  e fluidificação do esperma para  que  não  coagule. É  um órgão  de  mais ou menos do tamanho  de  um limão  quando está aumentada.

 

Concy Rodriguez/OC-  Dr.Alberto, os tumores de próstata acometem muitos  homens  aqui  na cidade  de Parintins?

Dr. Alberto – A gente  tem um número razoável de tumores de próstata  em Parintins. A estatística mundial,  principalmente  a americana, afirma ser 62% de casos a cada 100.000 homens, levando em consideração que a metade da nossa população seja masculina, em torno de 50.000 homens, a gente faz mais ou menos uns 30 a 40 novos casos de diagnósticos na cidade, e como acaba tendo interferência de outros municípios como Nhamundá, Barreirinha e Boa Vista do Ramos, essa população sobe um pouco, mas gira em torno  de 30 a 40 casos novos. Acredito que  já  tenhamos diagnosticados  e se tratando, mais de 500 pacientes.

 

Concy Rodríguez /OC- O câncer  de próstata  e  mais  comum em que faixa etária?

Dr.Alberto – O câncer  de próstata vai aumentando as chances, conforme aumenta a idade do homem.  E mais  comum a partir dos 50 anos de idade. Tenho  pacientes daqui da cidade, que foram diagnosticados com menos de 50 anos, mas é  mais comum a partir dos 50. Não  é a toa que o preventivo é  recomendado a partir dessa idade.

 

Concy Rodríguez /OC- O que leva ao aumento da próstata ?

Dr.Alberto – O que  faz  a próstata  aumentar, isso é  uma outra doença,  a hiperplasia benigna, é  diferente do câncer,  é  a interferência  da testosterona.  A próstata já  começa a crescer na verdade, na adolescência do menino, e com a interferência  da testosterona,  ela vai aumentar cada vez mais, por isso que as vezes a reposição hormonal ou aqueles jovens que usam testosterona nas academias,  acabam podendo tanto gerar princípio de um câncer ou gerar o aumento da próstata antes do esperado.

 

Concy Rodriguez/OC- De que  forma se identifica os tumores?

Dr.Alberto – Se identifica através do PSA (exame de sangue ) e do exame de toque  retal. Em alguns casos específicos,  também pode se realizará ressonância e/ou a ultrassonografia.

 

Concy Rodríguez /OC- Doutor, quais os sintomas do câncer de próstata?

Dr.Alberto – Como eu disse  antes,  a próstata está em baixo da bexiga, atravessada  pela uretra, então  todos os sintomas estão envolvidos no esvaziamento e no armazenamento da urina. Portanto, quando a próstata começa  a crescer ou quando  está  em estágio  avançado,  ele vai ter diminuição  do jato urinário, urgência em urinar (as vezes não consegue chegar a tempo ao banheiro), sensação de que não houve esvaziamento da urina adequadamente,  infecções urinárias de repetição,  dor ao urinar,  dor também na região  pélvica  (comum ente chamada de  pente). O ideal  é  que se faça o diagnóstico do câncer antes dele se manifestar, porque quando começam os sintomas é  porque normalmente a doença já  está  em estado avançado.

 

Concy Rodríguez /OC- Ainda existe muito preconceito em torno  do assunto toque  retal?

Dr . Alberto – Realmente ainda existe esse tabu muito grande em relação ao toque, muitos homens acham que de alguma forma vai ferir a masculinidade deles, eu acho  que já  vem diminuindo bastante, como eu disse  antes,  já  estou a dez anos na cidade e percebo a diferença de quando cheguei aqui para  os dias atuais. Já dá para sentir em determinados  pacientes, até  uma certa cobrança para que  se faça o toque, ele chega aqui e quer fazer, tem uns que ainda não  estão na idade de fazer, eu digo que ainda  não  está na hora, que não  precisa, só  a partir dos 50 anos. Mas ainda existe sim esse  tabu.

 

Concy Rodríguez /OC-  Essa avaliação  pode ser antecipada doutor, e em quais  casos  ela é  sugerida?

Dr. Alberto – A partir dos 50 anos todos  os homens devem fazer, a partir dos 45 anos, os que têm  fatores de risco, ou seja, casos na família,  descendentes da raça negra, os obesos e também os que têm histórias de câncer de mama na mãe,  irmã, parentes de primeiro grau. A partir dos 40 anos, quem tem mais de dois  casos de câncer de próstata na família. Esses casos na família são  de parentes de primeiro grau, como tios paternos e maternos, pai ou irmãos.

 

Concy Rodríguez /OC-  Se por acaso o paciente recusar  terminantemente  fazer  o toque retal, optar pelo exame de sangue, tudo bem?

Dr. Alberto –  Sim, pode se fazer o PSA, isoladamente, se tivesse que  optar em fazer só o exame de sangue ou só o toque, o PSA seria melhor, pois detecta mais que o toque,  então  existe a possibilidade de se fazer só o PSA.  Tem paciente que  diz que  não vai fazer o toque,  então eu sempre sugiro que faça pelo menos o PSA. Em alguns casos específicos, a gente pode fazer sim só o exame de sangue.

 

Concy Rodríguez/OC- Então, qual a real utilidade do toque retal?

Dr.Alberto – O toque  retal ainda é  indispensável,  porque tem pacientes que vão  ter o PSA normal e no toque alterado. Então, o que a gente  procura com o toque retal é  buscar uma possível  alteração, diferente da consistência  considerada normal, uma consistência  mais dura no local, um nódulo, um caroço, uma região  mais firme, essa alteração,  gera a suspeita de um tumor. Se tiver a suspeita do tumor,  tanto pelo exame PSA ou pelo toque alterado, eu tenho que lançar  mão  de uma biópsia para confirmação ou não.

 

Concy Rodríguez /OC- Doutor,  essas entrevistas com os profissionais de saúde não só são importante porque esclarecem as dúvidas da população,  como também enriquecem os nossos  conhecimentos. Antes de finalizar, deixe seu recado a todos os nossos  amigos leitores, principalmente aos homens.

Dr. Alberto – Bom saber que a coluna “Olho Clinico” tem esse propósito de abordar temas de interesse da comunidade, esclarecendo assuntos tão importantes sobre saúde, em suas  diversas vertentes. Parabéns a você pela iniciativa e ao “O Jornal da Ilha” por estar também contribuir com as nossas campanhas. Então,  a Campanha “Novembro Azul” tem o objetivo  de enfatizar as necessidades do homem, destacar a importância deles procurarem os serviços de saúde, pois é claro que o homem é mais resistente que a mulher nesse sentido. A mulher, culturalmente procura o ginecologista desde a adolescência, principalmente quando inicia sua vida sexual,  e isso não acontece com o homem, embora a gente esteja começando a enfatizar, através da Sociedade Brasileira de Urologia,  até  a necessidade do adolescente,  do homem jovem, começar a conhecer suas dúvidas,  orientações sobre DST, até as formas de se prevenir a gravidez, assunto esse importante tanto para a mulher quanto para o homem. Então esse é o momento de alerta, e a gente acaba destacando muito a situação do câncer de próstata nessa campanha.

Concy Rodriguez /OC- E depois da Campanha “Novembro Azul”, os atendimentos de rotina  vão  continuar acontecendo aqui na Policlínica Padre Vitório? Pois quem acompanha o seu trabalho de perto sabe que algumas pessoas entram em desespero ao imaginar que poderão ficar sem esses atendimentos.

Dr . Alberto –  (Risos) Sim, claro que depois  da campanha a gente vai continuar com os atendimentos, realmente tem pessoas que acham que vão parar, mas os trabalhos  continuam sim, toda semana, nas  segundas, quartas e sextas feiras, terça  e quinta não  atendo porque são  os dias que  faço as cirurgias e o paciente para ser referido para cá, ele deve primeiro ir à uma UBS, procurar um clínico geral que já  solicita  PSA e em seguida encaminha para que a gente  possa avaliar e direcionar esse paciente ao tratamento adequado. Sempre deixar claro, que esse paciente tem que vir encaminhado, o agendamento é  feito no Hospital Jorge Cohen (Complexo regulador) e segue se essa rotina o ano inteiro.

 

E como será a programação do Novembro Azul?

Dr . Alberto – No dia 7 fizemos a abertura no Centro de Convivência João do Carmo. Como o número é muito grande, então vamos fazer a campanha do rastreamento, buscar o maior número de casos. Todo homem que procurar as UBS, vai fazer o exame de sangue e aqueles que  estiver alterado, a gente vai ter os dias específicos para atender aqui para ganhar agilidade na busca ativa pelo câncer.  Vamos ter os dias específicos, que já estão sendo passados pelas Unidades Básicas de Saúde,  tem alguns atendimentos que serão feitos na zona rural, como Zé Açu e Vila Amazônia, já fizemos atendimento nos dois últimos meses em Cabury e Mocambo, e possivelmente deva se estender até a região do Rio Uaicurapa.

 

Concy Rodriguez, colunista JI

Fotos: Doug Henrique

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