Relatório final do Sínodo defende ordenação de homens casados na Amazônia e fala em ‘pecado ecológico’

O relatório ressalta a importância de a Igreja ter um “rosto amazônico”. 

Papa encerra sínodo com bispos Foto: Divulgação/Vaticano

 

Após três semanas de discussão, em ato histórico para a Igreja Católica , os 185 bispos reunidos no Sínodo para a Amazônia aprovaram um relatório em que defendem a ordenação de homens casados que vivem na região . O texto, dividido em 120 pontos e entregue ao Papa Francisco , ataca o desenvolvimento econômico predatório  – classificado como “ pecado ecológico ” –   e reconhece a dificuldade de celebrar a eucaristia nas comunidades nativas, diante da falta de sacerdotes.

O parágrafo mais controverso do texto – com 128 aprovações e 41 rejeições – defende a ordenação de homens casados ao propor “estabelecer critérios e disposições (…) de ordenar sacerdotes os homens idôneos e reconhecidos pela comunidade, que (…) recebam uma formação adequada (…) mediante a celebração dos Sacramentos nas zonas mais remotas da região amazônica, podendo ter uma família legitimamente constituída e estável”. O relatório final será avaliado pelo Papa.

O relatório ressalta a importância de a Igreja ter um “rosto amazônico”.  De acordo com o texto, muitas comunidades eclesiais passam meses, às vezes anos, sem receber a visita de um sacerdote. O texto, porém, reconhece que o celibato é “um dom de Deus”. Alguns padres sinodais reivindicaram que a ordenação de homens casados fosse tema de uma “abordagem universal” – ou seja, discutido em um encontro válido para toda a Igreja.

O relatório produzido pelos bispos têm caráter consultivo – o Papa, que já o recebeu, não é obrigado a implementar qualquer medida. Espera-se que ele se pronuncie sobre suas conclusões na homilia deste domingo.

Encerramento

Em seu discurso de encerramento, o Papa Francisco citou soluções propostas pelos bispos para aumentar a presença de sacerdotes na Amazônia, como a redistribuição de padres entre os países, e deu um duro recado à ala conservadora da Igreja, cujos expoentes classificaram a pauta do encontro episcopal como herética.

Segundo o Pontífice, os “cristãos de elite” não participam do diagnóstico da realidade da Igreja, preferindo restringir-se a debates disciplinares, e não pastorais.

— Como (os “cristãos de elite”) não têm coragem de estar com o mundo, eles creem estar com Deus. Como não têm coragem de se comprometer com as opções de vida do homem, creem lutar por Deus. Por não amarem ninguém, creem amar a Deus – afirmou o Papa, em uma mesa paramentada com uma planta, flores e duas araras.

Ainda de acordo com o Pontífice, o relatório produzido pelos 185 bispos reunidos no Vaticano enfatizou os quatro temas que mais receberam a atenção dos religiosos.

Na seara pastoral, os bispos apresentaram propostas não previstas na pauta do sínodo para vencer a falta de sacerdotes. Uma delas foi que jovens padres passem ao menos um ano na Amazônia, à disposição dos bispos locais. Francisco foi ovacionado pelos religiosos ao mencionar a sugestão.

Divisão do clero

Alguns bispos também propuseram a redistribuição do clero pelos países – o Papa lembrou que regiões mais desenvolvidas têm mais padres do que a Amazônia.

Sobre as discussões culturais, Francisco enfatizou a necessidade de interação entre o catolicismo e as tradições das populações nativas da Amazônia.

— Estamos entendendo o que significa discernir, escutar, incorporar a rica tradição da Igreja a momentos conjecturais – disse.

O tema social, disse Francisco, é a necessidade de reação a “todo tipo de injustiça” visto na Amazônia – onde ocorrem explorações de pessoas “em todos os níveis”.

Já a dimensão ecológica foi abordada a partir da encíclica Laudato Si, de 2015, a primeira da História da Igreja dedicada ao meio ambiente – mesmo sendo um documento religioso, sua elaboração também levou em conta os estudos científicos.

 

Renato Grandelle/O GLOBO-RJ

 

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