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Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro

Durante a Primeira Guerra Mundial, em meados de agosto e início de setembro de 1918, algumas pequenas notícias sobre um estranho mal começaram a aparecer nos jornais da capital federal.

Esse artigo tem como objetivo analisar os impactos políticos e sociais da epidemia de gripe espanhola em 1918, sobre a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal da República.

por: Concy Rodríguez/JI

Repórter da Saúde

 

Durante a Primeira Guerra Mundial, em meados de agosto e início de setembro de 1918, algumas pequenas notícias sobre um estranho mal começaram a aparecer nos jornais da capital federal, sem contudo despertar grande atenção das autoridades públicas e da população em geral. Desde o mês de maio, a Europa e a África eram assoladas por uma doença epidêmica, cujo diagnóstico era incerto. Inicialmente, ela acabou sendo confundida com diversas outras doenças, tais como cólera, dengue e tifo. Somente no final do mês de junho, vinda de Londres, obteve-se a informação de que se tratava de gripe ou influenza, e que já teria se alastrado por vários pontos da Europa. Percorreria o mundo em oito meses, matando entre cinqüenta e cem milhões de pessoas e tornando-se o maior enigma da medicina.

A alcunha de espanhola provinha do fato de que em terras da Espanha não se fazia segredo dos estragos feitos pela epidemia, ao contrário de muitos países que buscaram suavizar o impacto do mal reinante sobre suas sociedades (Kolata, 2002; D’Avila, 1993)

A explicação para a imputação do nome espanhola tem raízes políticas, devendo-se também à posição de neutralidade da Espanha durante a Primeira Guerra Mundial, assim como às demonstrações de simpatia por parte de uma facção do governo espanhol pelos alemães, fazendo com que a alcunha atribuída à moléstia espanhola ganhasse mais amplitude política, principalmente por iniciativa da Inglaterra (D’Ávila, 1993). A idéia de ‘esconder’ a doença foi sustentada no início da epidemia por instituições de prestígio, como a Royal Academy of Medicine de Londres. Mas, em meados de setembro de 1918, poucos ainda acreditavam em sua suposta origem espanhola.

A censura imposta pelos meios militares foi fator comum no período. Muitos países adotaram a censura às notícias sobre a epidemia, visto que a gripe afetou profundamente a capacidade bélica dos exércitos, fazendo com que ela fosse conhecida, primeiramente, como febre das trincheiras. Bom exemplo disso foi como o mal reinante acarretou a frustração dos planos de batalha do exército alemão, impondo o fracasso da ofensiva de julho de 1918. Esse plano militar quase levou a Alemanha, sob o comando do general Erich von Ludendorf, a ganhar a Primeira Guerra Mundial. A derrota levou o general a pedir demissão do exército alemão dois meses depois, por causa das críticas recebidas pelo que ocorrera (D’Avila, 1993; Kolata, 2002)

Enquanto, na Europa, a espanhola se disseminava, no Rio de Janeiro, capital da República, as notícias sobre o mal reinante eram ignoradas ou tratadas com descaso e em tom pilhérico, até mesmo em tom de pseudocientificidade, ilustrando um estranho sentimento de imunidade face à doença.

A influenza espanhola e os perigos do contágio esta moléstia é uma criação dos alemães que a espalham pelo mundo inteiro, por intermédio de seus submarinos, nossos oficiais, marinheiros e médicos de nossa esquadra, que partiram há um mês, passam pelos hospitais do front, apanhando no meio do caminho e sendo vitimados pela traiçoeira criação bacteriológica dos alemães, porque em nossa opinião a misteriosa moléstia foi fabricada na Alemanha, carregada de virulência pelos sabichões teutônicos, engarrafada e depois distribuída pelos submarinos que se encarregam de espalhar as garrafas perto das costas dos países aliados, de maneira que, levadas pelas ondas para as praias, as garrafas apanhadas por gente inocente espalhem o terrível morbus por todo o universo, desta maneira obrigando os neutros a permanecerem neutros.4

A participação do país na guerra – que se iniciou após os navios alemães terem torpedeado navios brasileiros, em 1917, e que ocorreria novamente em 1941 – foi encarada como um imperativo pelo qual o governo brasileiro salvaguardaria sua soberania, a autonomia e a grandeza do país. Era assim imprescindível que entrasse na luta com contingentes militares significativos para defender-se de seus inimigos..

 

Extraído dos textos da historiadora Adriana da Costa Goulart.

Resumo por: Concy Rodríguez/JI

Repórter da Saúde.

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