“Seu Variedade”

O Sr. Raimundo Nonato Neto, cearense de Sobral, ficava bastante aborrecido quando alguém o chamava de VARIEDADE; ficava vermelho igual um galo de briga e pelo canto da boca resmungava: “estão falando com a loja e não comigo”!. Chegou em Parintins no inicio dos anos 60; foi um dos primeiros comerciantes da João Melo e “VARIEDADE” era o nome de fantasia do seu comércio que o tempo transformou em seu sobrenome. Quem melhor o representava, como nordestino, era o cantor, compositor e sanfoneiro pernambucano Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”; ouvia suas músicas, respirava fundo e o saudosismo tomava conta do seu coração. Resguardava o sotaque, os costumes e jamais pensou em desprezar a carne seca, a buchada de bode, o feijão, o torresmo, uma boa rapadura e sua devoção por São Francisco de Assis. Era comum vê-lo às 12 e 18 horas, após o trabalho, no comércio do conterrâneo Montier, na esquina da Armando Prado com a 31 de Março, tomando umas talagadas de cachaça para abrir o apetite do almoço e do jantar; o mais interessante era que o seu tira gosto preferido era o papel de embrulho ou papel de embrulhar prego; colocava um pedaço na boca, saía e nunca comprovei se cuspia ou engolia. Todas as vezes que tinha um desentendimento com a esposa, do segundo casamento, ele simplesmente pegava um lençol, saía de casa, estacionava o carro em frente a Catedral e dormia no mausoléu da primeira esposa, no cemitério São José. Era um homem de opinião forte, bastante trabalhador e todos os anos fazia questão de viajar para fazer compras no Nordeste e abastecer sua loja. Contava, com muito orgulho, que em uma de suas viagens, trouxe no colo uma escultura de 1 metro do seu Santo Protetor e doou a igrejinha do bairro Emílio Moreira. Calma gente!! A história do CHEVETE, vamos contar agora!! ******* Seu RAIMUNDO comprou um Chevete de cor preta, ano 82 e naquele mesmo ano o cantor Almir Rogério fazia um sucessor avassalador com a música FUSCÃO PRETO. Tenho absoluta certeza que a música o influenciou ao apego desenfreado e paixão desmedida ao veículo. Toda tarde, durante 30 anos, tocava a música FUSCÃO PRETO e ficava em estado de êxtase reverenciando seu amigo de ferro. Era impressionante seu sofrimento quando via seu carro precisando de reparos e o quanto gastava para vê-lo recuperado. Enquanto seu fiel parceiro não estivesse em frente a sua loja, o cigarro CARLTON não apagava de tanta ansiedade. Um dia chegou em Parintins um cidadão que comprava carros usados e prometeu aos taxistas uma boa comissão para quem conseguisse pessoas interessadas em fechar negócio. Em três dias, com a ajuda de todos, conseguiu comprar uns dez mas queria levar doze para aproveitar a carga completa da balsa. Um deles falou: será que o VARIDADE não vende o CHEVETE dele?. Dois deles responderam: nós passamos lá e ele não gostou da conversa; ficou mal humorado, mudou de assunto mas, vá lá patrão, mostre dinheiro pra ele, faça uma boa proposta e talvez ele mude de idéia. E o CARLINHO, esse era o nome do comprador, foi mesmo!!. Chegou lá, deu boa tarde, pediu licença, olhou o CHEVETE inteirinho, gostou e fez a pergunta: QUER VENDER O CARRO?. E antes que o seu VARIEDADE respondesse, ele foi dizendo: gostei do carro e vou fazer de tudo para levá-lo. E repetiu a pergunta: QUER OU NÃO QUER VENDER O CARRO?. Seu Raimundo estava pálido, engasgado, tremendo de nervoso mas respondeu bem firme: VENDO SIM!!!. Quanto?. E novamente fez um esforço sobrenatural e disse: tenho que pensar!!. Pensar?. Vamos fechar agora meu amigo; faço uma proposta tão boa que duvido que diga não!. Ele disse: não posso fechar agora; tenho que calcular quando gastei durante todos esses anos, de gasolina, óleo, pneus, consertos e essa resposta eu so posso dar amanhã!. Carlinho percebeu que a história do VARIEDADE com o CHEVETE era famíliar e nada separaria ou destruiria essa relação. Percebeu também que o valor emocional era superior a qualquer proposta e o mais sensato seria respeitar e aplaudir aquele AMOR VERDADEIRO!!.

 

Inaldo Medeiros Cursino

Colaborador JI

 

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