Só erro de Bolsonaro pode dar chance a Haddad, avaliam especialistas

O capitão reformado do Exército está entrincheirado. Ataca e se defende pelas redes sociais(foto: Nelson Almeida/AFP)

Na reta final da eleição, a cautela nas campanhas de Fernando Haddad, do PT, e de Jair Bolsonaro, do PSL, se intensificará. Especialistas explicam, no entanto, que o cuidado deve ser maior por parte do capitão reformado, já que lidera as pesquisas. Só que o antipetismo se mantém forte e o pouco tempo de campanha que resta tende a ser insuficiente para o petista reverter o quadro.

 

Na avaliação do professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) Victor Trujillo, a estratégia de Bolsonaro, para esta reta final, deve continuar a mesma até o resultado do pleito. Ele explica que a decisão do presidenciável de deixar de ir aos debates é o correto a se fazer, do ponto de vista da campanha. “Há pouco tempo e a ausência dos debates criou uma trincheira para o Bolsonaro”, diz.

Essa barreira se formou a partir do fortalecimento da militância e do isolamento do candidato na dianteira das pesquisas. É por meio das redes sociais que Bolsonaro se comunica com o público. Desfere ataques em uma live, com ambiente controlado e sem contraditório, esclarece o professor. “No momento em que ele vai ao debate, se torna apenas um candidato, menor do que uma parcela dos eleitores o idealizaram”, acredita.

Fernando Haddad corre o risco de perder mais eleitores caso se distancie do ex-presidente Lula(foto: Divulgação)

Segundo o pesquisador, o Bolsonaro em que parcela do eleitorado está votando é um candidato “idealizado”, fortalecido pelo imaginário da população. Não ir aos debates se torna importante nesse aspecto, já que, ao comparecer, se tornaria de “carne e osso”.

É no debate que o eleitor vai ver o presidenciável cometer erros e se mostrar mais humano. Por enquanto, o professor avalia que ele tem sido visto como um “super-homem”. “Ele se entrincheirou, está no buraco, e como é que o Haddad vai fazer para tirar ele de lá? Está cada vez mais difícil trazer esse ‘mito’ para a realidade”, avalia.

Fato novo

Esperar um fato novo que prejudique o capitão reformado é a única chance de Haddad na disputa, defende o acadêmico. Para ele, Bolsonaro está em uma situação de conforto, acomodado e com quase 60% dos votos. Mas, para virar o jogo, não bastará uma estratégia “milagrosa” do petista. “Depende mais de um erro do Bolsonaro do que de uma estratégia mirabolante do PT”.

Victor Trujillo ressalta que a estratégia petista foi eficiente até certo ponto, mas chegou ao teto. Segundo ele, Haddad tem hoje nas pesquisas — em torno de 41% das intenções de voto —, pouco mais do que o ex-presidente Lula apresentava antes de ser retirado da disputa — 39%. “O risco de Haddad se distanciar de Lula e do PT é justamente perder o que ele já tem. Quando se muda muito a campanha, você muda com o objetivo de conquistar os eleitores que ainda não votam em você. Mas há o risco de perder o eleitorado já obtido”, lembra.

Paulo Calmon, diretor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (Ipol/UnB) lembra que o ex-militar possui um “grande percentual” do eleitorado comprometido com ele. Assim, o número de eleitores que possam vir a mudar de voto talvez não seja expressivo ao ponto de mudar o rumo da eleição. “O antipetismo é um fenômeno com múltiplas causas”, enfatiza.

Várias são as razões dessa rejeição ao PT, conta o professor. A primeira se deu pelos erros políticos cometidos pela legenda. Outro fator importante é o marketing político digital, impulsionado pelas novas tecnologias, e que ajudaram a “demonizar” o partido.

A desilusão popular com o sistema político, que reforçou o desejo de mudança e criou um ambiente contra Haddad, também é uma causa ressaltada pelo pesquisador. “O Estado passou a ser percebido como um inimigo do povo, e não um agente que promove o bem-estar e o desenvolvimento. Isso privilegia quem promete mudanças e assume posturas mais populistas”, acredita.

“O Estado passou a ser percebido como um inimigo do povo, e não um agente que promove o bem-estar e o desenvolvimento. Isso privilegia quem promete mudanças e assume posturas mais populistas”Paulo Calmon, cientista político da UnB

 

Lucas Valença – Especial para o Correio

Jorge Vasconcelos – Especial para o Correio

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