Um causo de amor e saudade

Eu tinha dez anos quando veio morar nas proximidades de nossa casa, uma senhora, com deficiência visual, juntamente com seu filho, também idoso.

Mesmo sendo uma criança, eu tinha consciência de que aquela senhora precisava de ajuda, pois vivia gritando, pedindo alguma ajuda aos vizinhos, na maioria das vezes em vão.

Apesar de morar com seu filho, ele saia muito cedo para o trabalho, era autônomo, vendedor de farinha e frutas no “mercado grande”, como ela se referia.

Então, eu passei a frequentar a casa dela, percebia que se sentia bem com a minha presença, tanto que às vezes chorava quando eu dizia que precisava ir para a escola. Eu estudava a quarta série no Colégio Brandão de Amorim e não costumava faltar.

Maria era seu nome, tinha um vozeirão, e costumava me chamar de um modo engraçado, dizia:  “Conceição, vem cuuu.” O povo ria, fazia piada, mas quando a ouvia, saia correndo, pois sabia que estava precisando de mim. Ela me dava alguns presentes, como cordões e medalhinhas de santos, pretos de tanto serem velhos, não tinham nenhum valor material, mas valia muito pra mim. Além dos presentes, ela gostava de tomar café com bolo, que o seu filho já deixava pronto, e toda manhã tomávamos café juntas.

Ninguém da família dela a visitava, mas eu sim e até banho eu lhe dava.

Tinha algo na casa dela que eu cobiçava demais, era um boneco grande de plástico, daqueles que chamam de “Joãozinho”, que se encontra em qualquer loja de variedades. Eu tinha muita vontade de pedir a ela, mas tinha vergonha. Mas um dia eu joguei uma indireta, eu disse:  -Dona Maria, eu posso lavar a roupinha desse boneco, ela está muito suja.

Ela respondeu:  “Sim, pode ficar com ele, mas não leva ainda, deixa ele ficar enfeitando aí na sala.”

Apesar de não enxergar, ela sabia que ele ficava sentado em cima de  uma mesinha. Pois bem, eu dei banho nele, passei até talco Barla, mas, depois o deixei no mesmo lugar. Todo dia eu ia lá e o carregava com muito carinho, afinal ele já era meu.

O tempo passou, um dia ela pegou uma forte gripe. Naquela época nem se falava em hospital, então ela se debilitava em casa, quem sabe não era pneumonia?

Eu nada entendia sobre doenças, mas, todo dia eu estava lá lhe dando algo pra comer, beber, jogando o seu xixi, lavando o seu bacio, cortando as suas sujas unhas,  fazendo as coisas que me pedia.

Um dia eu fui para a escola, ao retornar no fim da tarde, de longe avistei algumas pessoas em frente a sua casa, eu corri naquela direção com um aperto no peito, algo não estava bem.

Quando lá cheguei, tive o primeiro “golpe” no meu coração adolescente, aquela senhora, minha grande amiga que eu tanto amava, acabara de falecer.

Como eu sofri nessa noite, eu não entendia a morte, sentia tristeza e medo, era muito ruim. No dia seguinte acordei cedo, fui até sua casa, estava impotente, cadê ela para eu cuidar? As pessoas estranhas que estavam lá e se diziam parentes, não me conheciam, e me trataram como a um pedaço de pau, nem falaram comigo. Foi quando lembrei do boneco Joãozinho, olhei para a mesinha e nada mais. Sobre a mesa, que havia sido arrastada a um canto da sala, estavam apenas um bule de café morno e alguns pães e copos. Não ousei entrar mais na casa, pois a dona não estava mais lá para me receber.

Dali a pouco sairia o velório, a pior hora é a derradeira despedida. Fiquei ao lado do seu caixão até a hora da saída, com meu coração ferido, doía muito. Eu não acompanhei, mas fiquei olhando até o pequeno cortejo desaparecer no final da rua.

Depois disso tudo ficou uma grande curiosidade, quem levou Joãozinho, o boneco que minha amiga me deu?

Vou confessar a vocês, até hoje eu penso no Joãozinho, e apesar de poder encontrar facilmente, eu nunca tive um, eu não queria comprado, eu queria aquele Joãozinho, o boneco sujinho o qual jamais esqueci.

 

Concy Rodriguez.

Colunista JI

 

 

 

 

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