Gov-01

Visita fora de hora

Contando Causos...por Concy Rodriguez

Há muito, muito tempo, viviam na região do Mamoriacá, meus avós José e Antônia e seus filhos, entre eles minha mãezinha, que herdou da minha avó Antônia, a prática de visitar os parentes fora de hora. Lembram da Claudinha, do tanque de 500 litros e das pimentas? Pois bem, numa bela manhã de sol, vovó saiu com duas das suas filhas, a Zuleide e a Dulcelina, minha mãe.

Partiram de canoa rumo à casa da sua comadre Mariana.

Chegaram exatamente na hora do almoço, Mariana havia assado uma ventrecha de pirarucu, que estava rescendendo à distância. Ela era uma mulher muito alegre, falante, mas não tinha hábitos de higiene, tinha as unhas enormes e pretas de terra, pois trabalhava com plantações, com esterco de gado, cavalos, galinhas, enfim, estercos… Quando viu a vovó chegando, fez a maior festa, no interior é assim, ninguém fica chateado por receber visitas. Mariana pediu que sentassem à mesa, e como já estava comendo, (ela fazia bolinhos amassados de peixe com farinha com as mãos, unhão preto de terra), seu rosto, roupa e cabelos estavam cheios de comida… Então, ao ver vovó sentando ao seu lado, foi logo empurrando o prato e dizendo: – Ara termine já cumadre Antônia, meu bucho já está pra espocar de cheio…

Em seguida deu um arroto daqueles, seguido de um pum estrondoso…

Minha vó, com o estômago “embrulhado” disse: – Obrigada ‘cumadre’, não posso comer comida remosa, estou com inflamação na garganta…

Então Mariana, não querendo estragar a farofa, se vira para minha tia, empurra o prato melado de banha com farinha e diz: – Então acaba já essa gente… Minha tia morta de fome, mas com nojinho, se livra do jeito que dá:- Não dona Mariana, estou doente de inflamação…

Então não restava outra pessoa a não ser minha mãe, que saiu se com essa:- Não obrigada, estou com garganta, não posso comer também…

E assim seguiu a visitação, muito fora de hora.

 

 

Causo real

*Mariana- Nome inventado.

Por: Concy Rodríguez  Colunista JI

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